Pais na literatura infantil: um tabu?

O que é ser pai? Que tipos de pai existem? E como são retratados na literatura? Este mês, o Clube Quindim discutiu a paternidade em seus mais variados aspectos. Falamos sobre a ideia de “super-pai” e “pai legal”, que muitas vezes são associadas não a pais presentes mas a pais que vivem a paternidade com certo afastamento, e discutimos, em contraponto, a paternidade ativa. Livros em que cabe uma vida inteira, num ciclo que se reinicia a cada nascimento. Um pai viajante nos leva por suas aventuras fantásticas, cada uma simbolizada por uma de suas tatuagens, e acompanhamos a fascinação do filho por essas narrativas familiares. Trouxemos ainda histórias cheias de suspense, em que o leitor pode escolher qual desfecho prefere para a próxima página, e outras cheias de sensibilidade, para falar do acolhimento ao diferente. Em um livro permeado pelo nonsense, vemos os móveis ganharem vida e demonstrarem suas personalidades, em uma narrativa que diverte tanto os pequenos quanto os adultos. E ainda uma obra de um importante contista mineiro, que já começa seu efeito sobre o leitor na capa.

Pré-leitor (0 a 2 anos)

Super

super jean-claude alphen pulo do gato
Autor: Jean-Claude Alphen
Editora: Pulo do Gato

Na fantasia do protagonista, o pai é um herói das histórias em quadrinhos ou dos filmes de ação, até veste uma fantasia. Mas como não o enxergar assim? Esse pai aparentemente vive o papel padrão: trabalha o dia todo e participa da vida do filho com certo distanciamento. Enquanto isso, a mãe está lá, menor, fazendo tudo o que o pai faz e mais um tanto: leva para escola, dá almoço, banho, coloca pra dormir… Mas um dia o pai para de trabalhar e a história muda de figura. Agora é a mãe que passa o dia todo fora e passamos a ver o pai como um homem normal: um ser humano com fragilidades e que assume parte da carga da mãe enquanto ela vai trabalhar. E, ao sentir a falta da mãe, o menino descobre que ela também é uma super-heroína. Este é um livro para toda a família. O pequeno leitor vai reconhecer elementos do seu cotidiano: o pai, a mãe e a rotina familiar. Já os leitores adultos também poderão se identificar com os personagens e ter a chance de refletir e conversar sobre os papéis familiares, a questão da dupla jornada e da carga mental para as mulheres e da masculinidade tóxica que muitas vezes não permite que os homens exerçam a paternidade como gostariam.

Se eu abrir esta porta agora…

Se eu abrir esta porta agora alexandre rampazo sesi-sp
Autor: Alexandre Rampazo
Editora: SESI-SP

Nesta história, um menino imagina o que estaria por trás da porta diante dele, vivendo sentimentos como medo e ansiedade. É natural o desconhecido despertar esses sentimentos, ainda mais durante a infância, quando quase tudo é novidade. Mesmo que se crie uma rotina e se explique o que está por vir, as experiências desconhecidas virão. Mas sempre temos o poder de escolher como encará-las. Em Se eu abrir esta porta agora…, o autor utiliza os aspectos físicos do objeto-livro para contar sua história. O livro sanfonado permite que as duas versões estejam claramente separadas, mas que uma seja o verso da outra. E, mais ainda, quando você chega ao fim de uma parte, imediatamente pode começar a outra, num ciclo sem fim. O uso consciente dos elementos físicos do livro na narrativa é uma característica frequente do álbum ilustrado contemporâneo.

Leitor iniciante (3 a 5 anos)

O passeio

o passeio pablo lugones alexandre rampazo gato leitor
Escritor: Pablo Lugones
Ilustrações: Alexandre Rampazo
Editora: Gato Leitor

Este livro é uma linha do tempo. A história começa com um pai ensinando a filha a andar de bicicleta e termina com ela, depois de adulta, ensinando o próprio filho. É uma história que nunca termina, que se renova a cada nascimento. E não é assim o ciclo da vida? Nas delicadas ilustrações de Rampazo, vemos as mudanças na menina e no pai: as roupas, os cabelos. Às vezes um está adiante, o outro o ultrapassa, ou andam juntos, como na própria vida. Fala sobre diferentes fases da vida que nem sempre passamos, mas que podemos conhecer por meio da vivência que a literatura proporciona. Isso ajuda a elaborar nossos sentimentos sobre elas. Isso nos prepara para viver momentos de perda e transformação, que sempre serão difíceis, mas que podem ser vividos com mais acolhimento e menos sofrimento se já tivermos lido e refletido sobre eles.

A família mobília

a família mobília tatiana blass sesi-sp
Autora: Tatiana Blass
Editora: SESI-SP

Neste livro, a autora lança mão do nonsense e do absurdo para criar uma narrativa cheia de humor. Objetos inanimados por natureza aqui ganham nome, sobrenome e assumem personalidades que têm a ver com sua função, como o Carlos Quadros que só anda pendurado no Joel Papel de Parede. Ou a Telma TV que é muito antenada e rouba a atenção de quem está na sala. Durante a infância, a brincadeira e a fantasia têm um papel importante no amadurecimento neurológico e também na sociabilidade da criança. E, principalmente na primeira infância, as crianças transitam com muita facilidade entre a fantasia e a realidade, então o que nos parece absurdo para elas é muito mais natural.

Leitor autônomo (6 a 8 anos)

Meu pai era um cara legal

meu pai era um cara legal Keith Negley V&R
Autor: Keith Negley
Editora: V&R

O pai do narrador desta história já foi um astro do rock e aos olhos do menino sua vida “passada” parece ter sido muito interessante e divertida. Por isso ele acha que o pai deixou de ser legal, descolado. Mas o que as ilustrações nos mostram é um pai dedicado e participativo, que adora cuidar e brincar com o filho. A paternidade ativa é uma escolha que pode ser muito gratificante para os homens, mas até o próprio filho tem dificuldade de valorizar a escolha do pai. Toda essa ideia do que é “ser legal” ou “ter sucesso” varia muito conforme o gênero das pessoas. Às mulheres, o sucesso está muito associado a casar e ter filhos. Aos homens, ao sucesso profissional. Romper com esses preconceitos e entender o que lhe faz feliz independentemente do seu gênero é libertador. Para você, o que é ser legal? O que é ter sucesso? O que lhe faz feliz?

Leve

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Autora: Sandra Dieckmann
Editora: V&R

Os animais da floresta não gostam de saber que há um novo morador na caverna da colina. É um bicho estranho, que nunca viram antes. De longe e com medo, os animais o observam. Todos querem que ele vá embora, mas ninguém tem coragem de falar com ele. Só depois de algumas situações inusitadas que os corvos se aproximam para escutar sua história. Leve é um urso polar que quer voltar para casa e reencontrar sua família, mas que se perdeu depois que ficou preso em uma calota de gelo que derreteu. Todo mundo está em busca de segurança, e infelizmente às vezes somos obrigados a abandonar nosso lar em busca dela. A casa de Leve literalmente desapareceu e só ao final da história os animais da floresta decidem o ajudar a encontrar sua casa e sua família.

Leitor fluente (9 a 12 anos)

Papai tatuado

Papai tatuado Daniel Nesquens Sergio Mora wmf martins fontes
Escritor: Daniel Nesquens
Ilustrações: Sergio Mora
Editora: WMF Martins Fontes

As histórias familiares são um elemento importante para a construção da nossa identidade. Que criança nunca pediu para a mãe, o pai ou algum parente contar a história sobre o próprio nascimento, por exemplo? Ou sobre aquela avó que não conheceu ou aquele tio distante? E repetir histórias vividas juntos também reforça os vínculos, além de ser divertido: “Lembra aquela vez que a gente…?” Mas hoje em dia é tão fácil registrar nossas histórias com fotos e filmes que aos poucos estamos perdendo a capacidade de narrá-las em palavras. E o ato de narrar permite elaborar e compreender melhor nossos sentimentos e experiências. Narrar e ouvir histórias é um momento especial de afeto na família. A literatura nos faz viver novas experiências, conhecer novos mundos e perspectivas. Nesta história, o pai é o narrador viajante, que foi “buscar” seu conhecimento no contato com diferentes lugares e situações para trazê-los aos seus espectadores a partir de sua interpretação. Assim, o narrador é um sábio, cheio de experiência que vem de suas histórias e de outras histórias que também ouviu. Essa contação vai além de um simples relato, ela tem toda uma forma única de contar, que traz as marcas de quem conta.

O menino e o pinto do menino

o menino e o pinto do menino wander piroli lelis
Escritor: Wander Piroli
Ilustrações: Lelis
Editora: SESI-SP

Este livro foi publicado pela primeira vez em 1975 e se tornou um sucesso depois que Otto Lara Resende fez uma crônica sobre ele no programa dominical Fantástico, da tevê Globo. Hábitos, costumes e hierarquias familiares mudaram muito desde então, mas a editora optou por reforçar o bom humor do título na ilustração de capa. Wander Piroli abre mão do fantástico, de bruxas e duendes, e usa sua incrível habilidade como contista para narrar a vida como ela é. Na verdade, este livro é para qualquer idade pois não acompanhamos apenas o drama de Bumba, que ficou muito feliz ao ganhar um pintinho. O narrador onisciente desta história nos permite assistir a angústia da mãe e dos outros integrantes da família diante da situação nem tão inusitada assim: uma criança que ganha ou encontra um bicho. Ele não pode mantê-lo em casa pelas limitações sociais (o prédio não permite bichos). A isso se soma a consciência que os adultos têm de que o pintinho vai morrer e que Bumba irá sofrer com essa perda.


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