Paternidade ativa: o que falta para os pais se envolverem mais?

Não é novidade que ter uma figura paterna próxima, igualmente responsável pelos cuidados com a criança, é muito importante. Uma paternidade ativa impacta positivamente no desenvolvimento da infância, promove vínculos mais profundos entre pai e filhos e é determinante para a igualdade de gênero. Afinal, pesquisas indicam que o maior entrave à vida profissional das mulheres é a divisão desigual de tarefas no lar. Elas acumulam jornadas duplas e triplas, resultando em um estado de cansaço feminino coletivo e em grande carga mental.

Mas o que falta, então, para que os pais se envolvam mais? Reunimos alguns fatores, de acordo com o relatório “Situação da Paternidade no Mundo 2019”, publicado pela ONG Promundo, com dados de mais de 30 países e 12.000 pessoas entrevistadas. Confira:

Combater o abandono paterno

Um dos problemas básicos do nosso país ainda é o grande número de homens que não reconhecem a paternidade. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, há mais de 5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento. Trata-se do abandono paterno no nível mais primário e básico, e que precisa ser transformado para que possamos pensar em paternidade ativa.

Ampliar a licença-paternidade

Os primeiros dias na vida de uma criança são essenciais para o seu desenvolvimento cognitivo, afetivo e para a criação de vínculos. Para que a relação entre o pai e a criança seja de amor e proximidade, é importante que a figura paterna faça parte desse momento, o que é muito difícil sem licença-paternidade. Segundo estudo da ONG Promundo, menos da metade dos países do mundo oferece licença-paternidade paga. Quando ela existe, dura menos de três semanas. Por outro lado, as mães apontam essa medida como vital. Em sete países de renda média e alta, mais de 65% das mulheres dizem que teriam melhor saúde física e 72% alegam que teriam melhor saúde mental caso os pais tivessem pelo menos duas semanas de licença-paternidade.

Realmente dividir as tarefas de casa e de cuidado

Entre os países investigados pelo estudo, nenhum demonstrou igualdade na divisão de tarefas em casa. Em todo o mundo, as mulheres gastam mais tempo com o trabalho não remunerado de cuidar da casa e dos filhos – elas chegam a se dedicar até 10 vezes mais do que eles a essas funções. Para a professora de ciência política Flávia Biroli, autora de “Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil”, essa organização social da maternidade é responsável pela desigualdade salarial. Para o mercado de trabalho, de acordo com a pesquisadora, estaria em vantagem quem tem maior disponibilidade e está mais “liberado” do cuidado.

Mudar a cultura do mercado de trabalho

Muitas pessoas ainda encontram entraves no trabalho quando precisam, por exemplo, sair mais cedo para buscar o filho na escola ou levar ao médico. É importante discutir esses assuntos nas empresas e construir uma dinâmica que acolha a vida pessoal dos funcionários e funcionárias também. Investir na família e nos primeiros anos de vida da criança impacta da construção de uma sociedade mais bem-preparada para lidar com os desafios globais, um movimento que deve ser acolhido por todos nós coletivamente.

Desconstruir a ideia romantizada de maternidade

Um dos pilares que sustentam essas práticas nocivas é o da maternidade romantizada. Ela nos diz que as mães devem ser as principais cuidadoras das crianças, que nasceram para cuidar dos outros, que seu amor é instintivo, que sabem se dedicar aos filhos melhor do que os pais e que vão se realizar, prioritariamente, na criação dos filhos, e não com outros setores de sua vida. Essa ideia oprime as mulheres, que se veem obrigadas a dar conta de uma série de tarefas sozinhas, enquanto alivia os homens, como se realmente não devessem se dedicar tanto aos filhos. Questionar esses conceitos, portanto, é essencial. Cada família – e é importante lembrar que famílias, hoje, existem nos mais variados formatos – encontrará sua maneira própria de se organizar, mais perto de quem cada integrante é, e longe das expectativas e pressões sociais.

Construir um modelo mais positivo de masculinidade e paternidade ativa

Os estereótipos de gênero, ou seja, as ideias que construímos ao longo da história a respeito do que é ser homem e do que é ser mulher, nos dizem que os homens não são naturalmente cuidadosos e carinhosos. Também impedem meninos e homens de expressarem seus sentimentos e viverem um vínculo de amor com seus filhos. Basta pensar como é comum, especialmente nas gerações anteriores, a imagem do pai distante e rígido, que só se aproxima dos filhos para puni-los. Dessa forma, faz-se urgente, para ter uma paternidade ativa, consolidar um repertório novo de referências, com o exemplo de pais que dedicam tempo, afeto e carinho a sua prole. Podem cuidar, assim, melhor de si, de sua família e toda a sociedade.


Saiba mais: Protagonistas femininas: por que elas devem estar nas histórias que seu filho lê


martha lopes

Martha Lopes é jornalista e mestre em comunicação pela ESPM, dedicada a pesquisar a maternidade como construção social e sua representação na mídia. Trabalha há mais de 10 anos como editora, redatora e produtora de conteúdo no mercado editorial, jornalístico e publicitário. Também atua como educadora, ministrando oficinas de comunicação e de escrita, e coordenando projetos do #KDmulheres, iniciativa que a levou até a lista de mulheres inspiradoras de 2014, feita pela Think Olga. Também apresenta o podcast “Mãezonas da Porra” com Marcella Chartier.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *