A criança entediada na infância focada em produtividade: conheça Momo, de Michael Ende

Livro entregue pelo Clube Quindim trata das pressões da produtividade e do fim do tédio tão presentes hoje.

Um mundo em que os adultos não têm tempo para as crianças, em que todos só pensam em subir na vida e ter sucesso, onde o tédio e o ócio não têm vez, em que os pequenos perdem a capacidade imaginativa e brincam com itens eletrônicos. Parece familiar? Esse é o cenário descortinado no livro Momo e o senhor do tempo, do escritor alemão Michael Ende, também autor do clássico A história sem fim.

A obra, que integra a seleção de junho do Clube Quindim, foi escrita em 1973, mas traz muitas metáforas que nos ajudam a olhar de forma crítica para a realidade atual. Nela, uma garotinha chamada Momo vive nas ruínas de uma cidade. Ela insiste em ficar sozinha, mas mantém uma relação de afeto com os moradores do local, que sempre vão visitá-la e compartilham sua comida com ela.

Tudo muda, porém, com a chegada dos chamados “homens cinzentos”, figuras que têm uma espécie de “banco do tempo”, e que estimulam as pessoas a destinar todas as suas horas ao trabalho, à busca pelo sucesso e ao consumismo. Quase todos aderem a essa lógica e às promessas desses homens, menos Momo, que segue valorizando os sentimentos, a imaginação e a diversão.

Tempo que vai

“Existe um mistério muito grande que, no entanto, faz parte do dia a dia. Todos os seres humanos participam dele, embora muito poucos reflitam sobre ele. A maioria simplesmente o aceita, sem mais indagações. Esse mistério é o tempo.

Existem calendários e relógios que o medem, mas significam pouco, ou mesmo nada, porque todos nós sabemos que uma hora às vezes parece uma eternidade e, outras vezes, passa como um relâmpago, dependendo do que acontece nessa hora.

Tempo é vida. E a vida mora no coração.”

(Trecho de Momo.)

Vivemos em um mundo de alta produtividade. Trabalhar muito é um valor admirado em nossa cultura, sempre buscando alta performance e sucesso. Esse ritmo intenso, contudo, em nada se assemelha ao tempo interno de cada um, um tempo demandado por aqueles que valorizam as relações e contemplam o olhar mais livre e menos condicionado da infância. Um olhar despretencioso que se deixa deslumbrar com as pequenas grandes importâncias, as simplicidades da vida, vivendo o presente integralmente, e não uma eterna preparação para o futuro que nunca chega – no livro, Momo sintetiza esse espírito.

E, se por um lado os adultos estão constantemente absorvidos no frenesi das exigências contemporâneas, por outro, parecem destinar seu escasso tempo em ferramentas como as redes sociais e a tecnologia, de forma geral. Em nossa realidade, os aplicativos e smartphones aparecem quase como os “homens cinzentos”, sugando nosso tempo e nossa energia.

Já que as demandas são muitas, sobra menos tempo para estar com as crianças, que ganham brinquedos eletrônicos que fazem tudo – e demandam menos imaginação. Essa parece ser outra semelhança da história de Momo com o nosso mundo. Conectadas com a tecnologia, superestimuladas, mas pouco alimentadas com atenção e afeto, as crianças parecem perder a capacidade de criar e de desfrutar do tédio.

Não sei você, mas eu escuto com cada vez mais frequência essa queixa dos pequenos, de que se sentem “entediados”. É como se a criança perdesse a habilidade de inventar uma brincadeira ou simplesmente se jogar na cama e ficar pensando, acompanhar uma nuvem que passeia pelo céu, um pássaro, uma gota de chuva que desce a janela. Elas precisam estar sempre em movimento, em atividades criadas ou agendadas pelos pais e familiares.

Ler Momo é uma experiência reveladora. Mais do que uma obra-prima, em que cada palavra parece escolhida com todo cuidado, há reflexões importantes que o livro levanta, sobre as quais precisamos nos debruçar. Como conciliar as demandas contemporâneas que recaem sobre os pais, a necessidade de trabalhar, de dar conforto e estrutura para os filhos sem passar batido pela convivência diária e pelas trocas afetuosas? Como transmitir aos pequenos os valores do coração, sem que a máquina impetuosa do tempo atropele tudo? A escuta e o amor parecem pistas que podem nos levar à solução. Pensemos.

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