Por que ler Monteiro Lobato? 10+2 razões

“Haverá música infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para o espírito da criança ou do jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para crianças, que não seja lido com interesse pelo homem feito? Qual o livro de viagens ou aventuras, destinado a adultos, que não possa ser dado a crianças, desde que vazado em linguagem simples e isento de matéria de escândalo? Será a criança um ser a parte, estranho ao homem, e reclamando uma literatura também à parte? Ou será literatura infantil algo de mutilado, de reduzido, de desvitalizado — porque coisa primária, fabricada na persuasão de que a imitação da infância é a própria infância?”

Carlos Drummond de Andrade, Literatura infantil. In: Confissões de Minas. Literatura – Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.

 

Entre 1920 e 1947, Lobato publicou 23 livros que compõem a coleção “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”. A menina do nariz arrebitado foi o primeiro, lançado em 1920, com a arriscada tiragem de 50 mil exemplares, vendidos em poucos meses. Lobato dizia que não era um autor de infantilidades, e sim um autor infantil. Queria escrever livros para as crianças lerem e morarem: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar” – notamos aí sua afetividade, a valorização do sentimento em relação à leitura.

Hoje, em 2018, qual editora faz uma primeira tiragem de 50 mil exemplares e vende em poucos meses? Uma tiragem de três mil exemplares que costuma ser vendida em até dois anos é bem sucedida.

As desilusões de Lobato com o mundo adulto o levaram a escrever para crianças, na tentativa de formar pessoas melhores: “Um país se faz com homens e livros” é sua célebre frase.

Li a coleção do Sítio na infância, quando repetia a leitura dos meus preferidos: A chave do tamanho, A reforma da natureza e Viagem ao céu. Dona Benta, Tia Nastácia e Visconde eram as personagens de quem eu mais gostava. Achava a Emília chata e como adulta passei a admirá-la. Nos cursos e aulas que ministro, a obra de Lobato está presente, em citações, exemplos e referências. Sua obra me formou como leitora, professora, escritora, psicanalista, mãe… Cada vez mais, percebo que poucas pessoas leem Lobato nas escolas, nas bibliotecas e nas famílias.

Por que ler a obra de Lobato hoje? Pensei inicialmente em três razões. Logo, o tamanho da lista foi para seis, para 10. Até que tive que frear para 10 + 2 razões para ler Lobato. Seja patrono, seja pai da literatura infantil brasileira, ele foi um divisor de águas na história da literatura infantil e juvenil brasileira. Todas as inovações trazidas por ele na prosa literária prevalecem como modelos de uma literatura comprometida com a infância e a ludicidade. Os autores contemporâneos que começaram a publicar nas décadas de 1960, 70, 80 e 90 herdaram muitos dos recursos utilizados por Lobato no início do século passado.

 


1. A fantasia é o ponto alto das narrativas

A fantasia é o elemento das tramas, da linguagem e dos temas. É na fantasia que tudo acontece. Lobato humaniza os animais, dá vida aos objetos (a exemplo dos bonecos). E coloca objetos, animais e humanos numa mesma situação, com voz. Sem fantasia, não há possibilidade de se viver nem de se fazer literatura. Ele constrói um mundo mágico feito de palavras.

 

2. As ambiguidades

São muitas as ambiguidades e os paradoxos, o que empresta à obra um caráter móvel, não estático nem congelado. A boneca é de Narizinho, mas quem dirige as brincadeiras é a Emília. Essa geniosa criatura defende suas ideias com surpreendente força para sua frágil constituição de pano e macela. O intelectual Visconde de Sabugosa, ávido leitor e referência de sábias informações, é um vulnerável sabugo de milho.

Outra ambiguidade é a Tia Nastácia: há os comentários depreciativos sobre as feições da negra (lábios volumosos e olhos arregalados, por exemplo), mas ela dá vida aos personagens mais importantes (Emília e Visconde). Alimenta os moradores e convidados do Sítio, além de ser uma das lideranças.

Lobato criou personagens elaborados e complexos. Não se pode falar deles isoladamente. É preciso contextualizar no tempo – no contexto social, cultural e político.

 

3. As histórias lobatianas são fábulas nacionais

Além de tradutor de fábulas, Lobato utilizou recursos de construção dessas narrativas curtas na rede de histórias do Sítio. Conflitos entre animais e humanos, foco em valores universais, textos simples com temas nacionais foram alguns dos caminhos trilhados por ele. Em uma carta ao amigo Godofredo Rangel, de 1916, ele expressa seu desejo de “vestir à nacional” as fábulas de Esopo e de La Fontaine. Monteiro Lobato reparou, com um olhar e escuta atentos, que os seus filhos admiravam as fábulas contadas por Purezinha, sua mulher. E ainda as recontavam aos colegas. Então, por que não fazer histórias assim à brasileira?

 

4. Personagens femininas empoderadas e modelos familiares contemporâneos

Há uma força das figuras femininas como Dona Benta, Tia Anastácia, Narizinho e Emília. Onde estão as figuras masculinas? As duas lideranças do Sítio são mulheres: Dona Benta e Tia Nastácia. Não são casadas, são felizes como estão. Não há a idealização do homem, como aquele que fará a mulher realizada. O modelo tradicional de casal (homem e mulher) nem aparece. A estrutura familiar apresentada é parecida à que temos hoje: casas cuidadas por mulheres, com crianças de pais diferentes, a diversidade de idades e gêneros está presente. As pessoas se realizam independentemente de estarem casadas.

 

5. A voz e o olhar das crianças

Na obra lobatiana, prevalecem o olhar e o ponto de vista da criança. Isso nos diálogos, nos conflitos e na concepção de infância. Ele defende o direito da criança ao imaginário e à fantasia. Suas personagens brincam, são questionadoras e contestadoras. O adulto escuta o desejo das crianças. Isso era absolutamente inédito naquela época. Antes de Lobato, as histórias eram moralistas, com o ponto de vista adulto. Ele vai trazer a dialética, o diálogo, o confronto. Tudo pode ser falado e conversado. Ele não infantiliza as situações. Ela dá voz ao infantil – elemento caracterizado, por Sigmund Freud, como aquilo que nos faz criar, escrever, sonhar.

 

6. A linguagem é coloquial

A obra de Lobato é um divisor na história da literatura infantil brasileira. Antes dele: textos em português formal, sem trabalhar os pontos de vista, linguagem séria e do mundo adulto. Depois dele: textos coloquiais, exploração das sonoridades. Há ainda a valorização de diferentes pontos de vista. Ele abrasileirou a linguagem. Tornou-a mais musical.

 

7. As obras abordam conteúdos educativos e temas do mundo adulto

Alguns títulos como Aritmética da Emília, Emília no país da Gramática e Histórias do mundo para crianças tratam de temas escolares. Poderíamos dizer que são livros informativos (não ficcionais). A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ tem um prêmio dessa categoria.

História do mundo para crianças – quando Dona Benta narra fatos históricos – discute questões políticas e sociais da época. Isso não está escondido das crianças. As guerras mundiais, o capitalismo, a economia e outros assuntos são conversados no Sítio, com as crianças, os seres fantásticos e as adultas.

8. A preservação e a valorização da natureza

Antes de existir o movimento ambientalista, a defesa do meio ambiente, havia o enaltecimento de elementos da natureza, recorrentes nas obras de Lobato. Em Caçadas de Pedrinho, A chave do tamanho e outros, observamos como o meio ambiente era valorizado. Há trechos de bela poesia na descrição de um galho, uma borboleta, um peixe. Há uma integração da natureza e do mundo humano, não como partes, mas uma unidade.

 

9. Autonomia do leitor

Na obra de Lobato, o leitor é autônomo para estabelecer identificações. Há liberdade e não culpa para se identificar com uma personagem folclórica, uma clássica, uma de época. Ele dá voz aos personagens, aos diferentes pontos de vista. Com isso, dá voz aos diferentes leitores. Antes da sua obra, não havia essa autonomia, fruto também da dialética filosófica trabalhada por ele.

 

10. Trabalho de intertextualidade e de metaliteratura

Lobato foi um grande leitor, com isso, transita pelas obras clássicas de todos os tempos. Foi tradutor, jornalista e educador. É comum o recurso de uma história dentro de outra história e ainda se apropriar de uma obra clássica para falar dela ou dialogar com ela. Personagens memoráveis visitam o Sítio.

A conversa entre histórias, de tempos e de locais diferentes, é constante. Algumas falas da Emília e do Visconde são lições de como escrever: o que valorizar, o que descartar.

 

11. Valorização do folclore

Ele traz personagens, fatos, repertórios do folclore nacional e estrangeiro. O mais importante é a retomada da tradição oral como genuína e necessária à literatura.

A literatura infantil surgiu de/a partir do folclore: Charles Perrault (1628/1703), Irmãos Grimm – Jacob (1785/1863) – Wilhelm (1786/1859), Hans Christian Andersen (1805/1875), etc. E Lobato fez bonito ao se apropriar do folclore brasileiro, trazer o saber popular, a tradição oral.

 

12. Foco no nacional

Lobato valoriza o que é brasileiro: a linguagem, o folclore, o cenário, o ambiente, as pessoas. Precisamos lembrar que ele era de uma família paulista tradicional, neto de fazendeiro, nascido dois anos após a abolição da escravatura. Tudo o que ele escreveu estava conectado ao seu tempo. Mas também ia além, no sentido de ter antecipado muitas das mudanças que fomos tivemos na história da literatura infantil.

 

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* A imagem que ilustra este post é de autoria do artista Manoel Victor de Azevedo Filho. Sócio-fundador da Escola Panamericana de Arte, ele foi o primeiro ilustrador brasileiro a usar o óleo nos trabalhos de ilustração, e também foi pioneiro ao levar desenhos para a televisão esboçando-os ao vivo.


Ninfa Parreiras é curadora do Clube Quindim, psicanalista, escritora e professora de literatura. Graduada em Letras e em Psicologia pela PUC-RJ, mestre e doutora em Literatura Comparada pela USP. Foi pesquisadora da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique. Desenvolve pesquisas literárias e atua como professora de literatura, consultora literária, editora de livros, escritora e psicanalista. Trabalha há 30 anos com literatura infantil, no Brasil e exterior.

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