Livro de imagem: a importância de um livro sem palavras

Ninfa Parreiras fala sobre a importância do livro de imagem a partir da análise de O fim da fila, de Marcelo Pimentel, livro entregue em agosto aos assinantes do Clube Quindim.

 

Livros de imagem são gavetas mágicas, com desenhos dispostos numa sequência narrativa. É um filme para os olhos de leitores de todas as idades. Ao passar uma página, nos surpreendemos com a mudança de cena, com os personagens, com os movimentos, com o deslocamento do nosso olhar. Cada imagem nos remete a sensações diferentes. O que mais nos chama a atenção nesses livros são as surpresas com as experiências sensitivas: o toque, o ritmo, o gosto, o cheiro, o visual, o ruído do passar das folhas…

Um livro de imagem pode ser bem manuseado por crianças em fase de alfabetização, e pode ser apresentado aos bebês como um objeto cheio de ilustrações e de descobertas. Crianças e adolescentes que dominam o código escrito da língua também costumam gostar desses livros, principalmente quando há uma temática interessante e surpreendente. Aquilo que faz o leitor querer ver de novo, saber mais um pouco ou ficar na dúvida. A literatura nos provoca incertezas e não conclui as histórias com uma única possibilidade interpretativa.

No livro de imagem O fim da fila [que os leitores do Clube de Leitura Quindim receberam em agosto de 2017], passeamos por um Brasil cheio de bichos, de plantas, de etnias. Visitamos uma aldeia indígena. Isso não aparece assim no primeiro olhar. Precisamos descansar os olhos em cada página e enlaçar as ilustrações de duas páginas com uma leitura cuidadosa. Aliás, essa é uma característica da literatura: o uso de não ditos, o contato com o que parece estranho e nos revela coisas que não esperávamos. A literatura caminha por vias indiretas, ela não nos revela o fim da fila.

Um dos personagens pinta e no movimento do trabalho nos leva a passear pelo processo de criação. As obras que abordam a intertextualidade (a conversa entre outros textos e imagens) e a metaliteratura (falar sobre o fazer literatura), de alta qualidade artística. E mais ainda quando trazem metáforas e imagens. Isso tudo sem palavras, com desenhos e o movimento de corpos, de objetos, de vegetais, que nos proporcionam uma leitura cheia de fantasias e associações com outras experiências artísticas.

O título explora o som em “fi” (fim e fila), que pode nos remeter à finitude da vida e à capacidade infinita que a literatura tem de nos entreter. Para isso servem as obras literárias: deliciar crianças e adultos e nos fazer pensar na nossa existência. O fim nos leva a um começo que se renova a cada virada de página, num movimento circular, como o do tempo, como o desta história sem palavras.

Na edição desta obra, a Editora Rovelle nos apresenta um processo artesanal — na escolha de um papel que parece o de embrulhar — de fazer as coisas, algo que hoje em dia custa tempo e determinação. No mundo do capital, o fazer à mão é valorizado, raro e necessário. A opção do ilustrador por pouca cor nos instiga a pensar sobre os excessos e a busca por uma vida mais próxima à natureza e à matéria-prima. Afinal de contas, as cores são resultado de misturas entre elas, uma brincadeira que nossos olhos podem inventar.

Uma das características do trabalho de Marcelo Pimentel como ilustrador é a busca de inspiração nas culturas indígenas, como a pintura da pele, de potes e demais utensílios. É nas culturas nativas que o ilustrador encontra elementos, traços, cores e suporte para desenvolver seu trabalho, fruto de uma pesquisa séria e de uma valorização da brasilidade desses povos. Ao olharmos suas ilustrações, também nos sentimos fazendo parte dessa cultura nativa ainda presente em rituais dos povos indígenas e peças de artesanato.

O fim da fila nos possibilita experimentar o ciclo da vida, da natureza, das estações. Imagens de bichos saltam com alegria e vivacidade e brincam num jogo de esconde-esconde. É o espelho que vai revelar a metamorfose, e a satisfação pode durar pouco. Na verdade, nossa vida é feita de ciclos, de instantes. Vire a página e procure o fim da fila — ou melhor, brinque com a fila, que a brincadeira vai continuar. As imagens são pra gente participar dessa história!

 

 * Este texto compõe o encarte do premiado livro O fim da fila, de Marcelo Pimentel, publicado pela Editora Rovelle e que foi escolhido pelo Clube de Leitura Quindim como uma obra importante para as crianças brasileiras.

 

 

 

 

 

Ninfa Parreiras é curadora do Clube Quindim, psicanalista, escritora e professora de literatura. Graduada em Letras e em Psicologia pela PUC-RJ, mestre e doutora em Literatura Comparada pela USP. Foi pesquisadora da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique. Desenvolve pesquisas literárias e atua como professora de literatura, consultora literária, editora de livros, escritora e psicanalista. Trabalha há 30 anos com literatura infantil, no Brasil e exterior.

SalvarSalvar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *