O gênio do crime: o que torna o livro, publicado há 50 anos, tão atual?

Com frequência se diz que a infância mudou. Que as crianças de hoje não têm os mesmos interesses das de antigamente. Que a literatura que leem é muito diferente. No entanto, algumas narrativas seguem fazendo sucesso geração após geração. É o caso de O gênio do crime, obra de João Carlos Marinho que encanta o público infantil há 50 anos. Por conta desse marco, o livro ganhou uma edição comemorativa pelo Grupo Editorial Global, que chega antecipadamente aos assinantes do Clube Quindim.

Ana Maria Machado
Ana Maria Machado

“Quando fui dona da Malasartes (a primeira livraria infantojuvenil do Brasil, aberta em 1979, no Shopping da Gávea, no Rio), e chegavam pais dizendo que as crianças não gostavam de ler, eu recomendava logo ‘O gênio do crime’. Eu mesma ficava esperando as aventuras da turma do gordo. Era louca pela Berenice.”

Se você cresceu nos anos 1980 provavelmente participou da febre que este livro gerava. Cheio de aventura e mistério, ele mostra uma turma de jovens diante da solução de um crime. Há uma fábrica de figurinhas de futebol que dá prêmios às crianças que preencherem o álbum. Entre os cromos, há os fáceis e os difíceis de serem encontrados. Só que, de repente, muitas pessoas começam a conseguir encher seus álbuns: por trás desse fenômeno, uma fábrica clandestina produz figurinhas falsas. E, na condução dessa fábrica, há um gênio do crime cruel e ardiloso.

Quem investiga tudo isso é uma turma composta pelos jovens Edmundo, Pituca, Bolachão e Berenice. Entre todos esses personagens, Bolachão, “o Gordo”, é o que mais se destaca. No começo do livro, ele é apresentado como um “zero à esquerda”, frequentemente alvo de tirações de sarro por parte dos outros jovens. Contudo, muito inteligente e corajoso, ele vai assumindo o posto de líder do grupo, despertando a admiração dos seus companheiros e fortalecendo sua autoconfiança. Vale dizer, inclusive, que este é o primeiro livro da série de 13 aventuras da “Turma do Gordo”, atestando o protagonismo desse personagem tão especial.

Pedro Bandeira
Pedro Bandeira

“João Carlos foi um dos maiores, pioneiro das turmas protagonistas da literatura juvenil. Seu livro O gênio do crime é um clássico, no qual muitos de nós bebemos a nos fartar.”

“Ele era fabuloso. Trouxe algo completamente novo para a literatura infantojuvenil brasileira. O gênio do crime tem um humor fresco, piadas que chegam ao nível de Mark Twain.”

Uma história de sucesso

O gênio do crime foi o primeiro livro escrito por João Carlos Marinho, em 1969, mas se tornou seu maior sucesso: superou a marca de 60 edições, vendeu mais de um milhão de exemplares e representava 50% das vendas de livros do autor, conforme ele diz em uma entrevista de 2013 (assista a seguir). O autor, que nasceu no Rio de Janeiro, mas vivia em São Paulo, era advogado e, apenas porque pôde contratar outro profissional para trabalhar em seu escritório, conseguiu ter tempo para escrever essa primeira obra.

Depois de O gênio do crime, Marinho escreveu mais de 15 livros, quatro deles para adultos, e foi reconhecido por diversos prêmios. Pela obra Sangue fresco, recebeu o Jabuti e o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Por Berenice detetive, ganhou o Prêmio Mercedes-Benz.

Além disso, em 1973, O gênio do crime virou filme, dirigido por Tito Teijido, com o nome O detetive Bolacha contra o Gênio do Crime, e foi traduzido para o espanhol.

Ruth Rocha

“O João foi o primeiro que fez. Depois outros fizeram. O gênio do crime é original, é novo. Por isso ele ficou. Ele influenciou muito a literatura que veio depois.”

 

O gênio do crime: por que tanto sucesso?

O livro tem a marca de uma época efervescente na cultura brasileira, e de contestação da contracultura no mundo todo. Não à toa, uma das suas principais marcas é a força, a coragem e a autonomia dos jovens protagonistas. Não há um adulto que direcione seus atos, mas eles mesmos usam sua inteligência para investigar o crime, se colocando em situações perigosas, inclusive. Rompem assim com as hierarquias tradicionais entre crianças e adultos, uma das características da Contemporaneidade.

Além disso, O gênio do crime foi precursor no gênero da literatura policial para o público juvenil no Brasil. Cheias de humor e piadas afiadas, suas páginas transpiram vida e energia, enredam os leitores de todos os tempos, dispostos a acompanhar os personagens na aventura e saber o desfecho da investigação. Características de um verdadeiro clássico da literatura.

Marisa Lajolo e Regina Zilberman
Marisa Lajolo e Regina Zilberman

“João Carlos Marinho inaugurou na literatura infantojuvenil brasileira uma nova trajetória, em que um grupo de meninos e meninas (da elite) que resolvem os mistérios, que são insolúveis para os adultos, são independentes e decididos, sendo que suas aventuras têm continuidade de uma obra para outra, caracterizando uma série, seus livros abordam temas críticos entre efeitos do ‘maravilhoso’ em uma incrível combinação de realidade e fantasia.”

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *