4 escritoras que transformaram a literatura brasileira

O Dia da Mulher é um dia de luta, e um dia de celebrar essa luta. Uma data que nos lembra das conquistas de mulheres que vieram antes de nós para que tivéssemos um pouco mais de igualdade de direitos e de oportunidades. E mais: hoje é um dia para reverenciar essas mulheres, essas pioneiras que fizeram história ao desbravar caminhos em setores antes apenas habitados por homens. Setores como a escrita, que ainda hoje, em pleno século 21, demonstra grande discrepância entre o número, visibilidade e valorização de escritores homens e de escritoras mulheres.

As quatro autoras reunidas a seguir fazem parte desse movimento histórico: elas não só transformam gerações com suas obras como revolucionaram a literatura praticada no Brasil. É em homenagem a elas que o Clube de Leitura Quindim reúne em sua seleção de março obras dessas autoras, que redesenharam o horizonte da literatura brasileira.

Saiba mais sobre elas (atenção: há spoilers sobre os livros):

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Cecília Meireles

cecilia meireles os pescadores e as suas filhas
“Cecília Meireles celebra a capacidade das crianças mergulharem com alegria em seu universo particular, mesmo diante do desconhecido” – Spoiler sobre a escolha do mês de março

“Não ando perdida, mas desencontrada. Levo o rumo na minha mão”

Seus poemas foram traduzidos para diversos idiomas e não podem ser classificados em apenas uma escola literária. Eles registram a transitoriedade das coisas, uma compreensão lírica e muito sensível do mundo. Ou como diz Marina Colasanti:

“Na poesia como na crônica, seu olhar se pousa sobre o mundo, acariciante e crítico a um só tempo, e ela descreve, não para contar a quem a lê, mas para melhor conhecer aquilo que está vendo”.

Uma das maiores poetas da nossa literatura. E atenção, é “poeta”, não “poetisa”. Cecília fazia questão de ser chamada assim. Para ela – e para outras, como Alice Ruiz –, ser chamada de “poetisa” diminui o valor de seu trabalho. Esta mulher maravilhosa foi ensaísta, cronista, tradutora e educadora. Para combater as desigualdades no país, defendia uma educação pública laica e de qualidade. Seu primeiro reconhecimento literário veio aos nove anos de idade, das mãos do escritor Olavo Bilac, então inspetor escolar do Rio de Janeiro. Com outros intelectuais, nos anos 20, fundou o movimento Escola Nova e, em 1934, criou o Centro de Cultura Infantil, a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro.

Tatiana Belinky

limeriques tatiana belinky
“Não são imagens óbvias, é o nonsense sobre o nonsense ressignificando formas e objetos neste teatro de sombras.” – Spoiler da escolha desse mês

“Eu tinha onze anos e meio. A bibliotecária disse: ‘É impróprio e não é para menina’. Eu disse: ‘Existem livros masculinos e femininos?'”

Essa gigante movimentou o cenário da literatura infantil brasileira. Além de ter sido a responsável pela primeira adaptação do Sítio do Pica-pau Amarelo para a televisão, Tatiana possui vasta obra, sempre nos presenteando com seu ritmo e humor característicos. O que nem todos sabem é que além do Sítio e de suas obras, Tatiana também foi pioneira no teatro infantil e responsável por fazer com que grandes obras da literatura universal chegassem a nós, com suas traduções de autores como Tolstói, Tchekhov e Bertolt Brecht, e com seus… limeriques! Ela publicou várias obras com esse gênero, contribuindo para popularizá-lo na literatura infantil brasileira.

Este mês, no dia 18, será o centenário de Tatiana Belinky. Pela sua importância e em homenagem a essa grande escritora, o Clube Quindim selecionou um de seus livros que reúne diferentes características de sua obra. Tatiana Belinky é autora que merece ser comemorada e homenageada sempre, pelo que foi e pela contribuição incalculável para a literatura infantil brasileira. Como diz Alberto Martins, um de seus editores:

“Livre e altiva como ela só, Tatiana sabia que no fundo da infância há um rio que corre sempre ao contrário. Ele é feito de leveza e irreverência. Tatiana passou a vida mergulha­da nesse rio.”

Clarice Lispector

clarice lispector a mulher que matou os peixes
“Sobre os descuidos de uma mulher atarefada, sobre os conselhos para um filho e sobre as dinâmicas cotidianas.” – Spoiler da escolha do mês de março

“Eu sou mais forte do que eu.”

Em um momento em que poucas mulheres tinham acesso à instrução e muitas se viam diante da obrigação de se casar e ser mãe, confinadas ao lar, é uma vitória a liberdade que Clarice conquistou para escrever e a projeção alcançada. Como diz Benjamin Moser, biógrafo da autora: “Antes de Clarice, uma mulher que escrevesse durante toda a sua vida – e sobre esta vida – era tão rara a ponto de ser inaudito”.

Além de ser uma das mais importantes escritoras de língua portuguesa, foi também uma mulher bastante comum: burguesa, ocidental, heterossexual,
casada e… mãe. E é essa a matéria-prima da obra de Clarice, “o tédio e as felicidades clandestinas da dona de casa comum; o prazer da jovem mulher com sua beleza, e sua descoberta subsequente dos horrores que o espelho oferece: o rosto deformado pela maquiagem; o corpo engordando; o corpo envelhecendo” (Benjamin Moser).

Clarice nasceu em 1920 em uma aldeia da Ucrânia, parte da Rússia na época. Sua família, desanimada com a miséria no país de origem, veio para o Brasil quando Clarice tinha dois anos, chegando a Maceió. Com uma obra vasta, Clarice foi jornalista e publicou seu primeiro conto aos 19 anos. Sua literatura acompanha o desenvolvimento da sua vida, e nela é possível ver dilemas que vão da adolescência à velhice, passando pelo amor, pelo casamento e pela maternidade. Assim, a mulher moderna ganha seu palco na escrita de Clarice – e à medida que ela dá espaço para essa mulher, ela mesma o conquista.

Marina Colasanti

marina colasanti quando a primavera chegar
“As camadas de leitura que esta obra traz ultrapassa as fronteiras da idade – se é que elas existem de fato.” – Spoiler da escolha do mês de março

“Somos mutantes, mulheres em transição. Como nós não houve outra antes. E as que vierem depois serão diferentes.”

A maior autora de contos de fadas brasileira. Uma das escritoras mais premiadas. Se você não conhecia Marina Colasanti, precisa conhecer. Suas obras abordam por meio do simbólico questões profundas inerentes ao humano. Temas como o feminino, a arte, o amor e os problemas sociais estão presentes em sua obra. Aliás, muito antes da popularização recente da ideia de empoderamento feminino, Marina já trazia em seus livros discussões sobre a importância da emancipação da mulher e do fortalecimento da autoestima.

Nascida em 1937, em Asmara, na Eritreia, chegou ao Brasil com sua família em 1948, e hoje vive no Rio de Janeiro. Artista plástica de formação, trabalhou como jornalista, publicitária e tradutora. Seu primeiro livro foi publicado em 1968 e hoje totaliza mais de cinquenta títulos lançados no Brasil e no exterior, entre poesia, contos, crônicas, livros infantis e juvenis.

Além de escrever muitas obras que podem ser lidas por jovens e crianças, também atua defendendo a leitura e uma educação capaz de formar leitores, como diz: “O professor que não é leitor não tem como formar leitores – não formará um. A leitura é contaminação amorosa: o professor tem que acreditar no que diz e, para acreditar, ele tem que ser leitor”. Sim, Marina, concordamos contigo: é o amor e o afeto, o olhar de encantamento de um que transborda no outro e assim contagia mais um leitor.

Marina Colasanti é também uma das curadoras do Clube de Leitura Quindim, selecionando obras de literatura transformadoras que são enviadas todo mês aos assinantes. Recentemente, também deu esta entrevista sobre literatura e infância em nosso blog.

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