Literatura infantil e ditadura militar: crítica que driblou a censura

“A literatura infantil é, antes de tudo,

Literatura; ou melhor, é arte:

fenômeno de criatividade que representa o mundo,

o homem, a vida, através da palavra.

Funde sonhos e a vida prática, o imaginário e o real,

Os ideais e sua possível/impossível realização…”

Nelly Novaes Coelho

A arte e a literatura têm a imensa potência de propor a reflexão sobre temas importantes e duras realidades. Com a literatura infantil, não é diferente: De forma simbólica, livros para criança podem convidar os pequenos a compreender valores e questionar percursos históricos. E quando o assunto é a literatura infantil produzida durante a ditadura militar, duro período da história brasileira que se estendeu entre 1964 e 1985, ela tornou-se campo fértil para alguns autores aclamados conseguirem trazer à tona provocações e questionamentos impossíveis de serem publicados em obras adultas.

Em sua dissertação de mestrado na USP, Juliana Camargo Mariano pesquisou justamente esse tema. Ela comparou livros infantis escritos no Brasil e em Portugal durante seus períodos ditatoriais e mostrou que eles conseguiram representar a realidade dos países nas obras. No recorte brasileiro, debruçou-se sobre quatro livros da escritora Ruth Rocha: O reizinho mandão, O rei que não sabia de nada, O que os olhos não veem e Sapo vira rei vira sapo (ou a volta do reizinho mandão).

Para a pesquisadora, os livros usam elementos de paródia, alegoria e carnavalização como uma forma de conseguir representar a realidade política e social do país na época. Assim, não perdem o caráter do humor que fascina os pequenos. Em entrevista ao portal da USP, Juliana esclarece:

“Quando lidos pelas próprias crianças, elas não associam as histórias com fatos políticos, mas fazem uma ligação com eventos do dia a dia envolvendo a relação com os amigos, os pais e a escola. Porém, quando pais, professores ou contadores de histórias leem esses livros, há uma outra percepção e cabe a essas pessoas fazerem uma ponte com a situação política dos países, sem, é claro, tirar o lado lúdico da atividade”.

Não é difícil, em nossa leitura adulta, fazer esse tipo de associação. Vale recuperar, por exemplo, a história de O reizinho mandão, em que um menino rico chega ao poder depois que seu pai morre. Ele não tem maturidade para o cargo e começa a criar leis sem sentido que oprimem as pessoas – uma delas exige que ninguém corte a unha do dedão do pé direito em noite de lua cheia. O povo, assim, torna-se calado e infeliz. Muito parecido com um contexto antidemocrático real, não é mesmo?

“Pequena” demais para a censura na ditadura militar

Se faziam alusões tão claras ao autoritarismo de quem tomara o poder na época, como os autores de literatura infantil conseguiram driblar a censura? Josenildo Oliveira de Morais, que pesquisou o assunto em sua dissertação de mestrado na Universidade Estadual da Paraíba, afirma que os censores encaravam a literatura infantil como mais um “brinquedinho”, como algo menor, portanto inofensiva ao sistema. Isso favoreceu, nos anos 1970, em especial, o surgimento de nomes que despontaram na produção da literatura para crianças, como Fernanda Lopes de Almeida, Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos Queirós, Marina Colasanti, Lygia Bojunga, Ziraldo, Edy Lima, Elvira Vigna, João Carlos Marinho e outros.

De acordo com o pesquisador, os escritores de literatura infantil da época uniram seu talento para a ilustração e para o texto para denunciar o sistema de governo vigente. Assim, veem-se histórias que tratam, por exemplo, do medo – caso de Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque e Ziraldo; e Raul da ferrugem azul, de Ana Maria Machado –, de discursos autoritários – como em História meio ao contrário, de Ana Maria Machado – e de mecanismos que podem limitar o pensamento – como aparece em A Casa da Madrinha e A bolsa amarela, de Lygia Bojunga. De forma simbólica, discutiam temas importantes sem chamar a atenção da censura.

A vocação da literatura infantil brasileira

Por todo esse contexto, observou-se, no país, uma verdadeira explosão da literatura infantil na época da ditadura militar. E um grupo de pesquisadores aponta que o caráter contestador e de trazer o contexto histórico e social para as obras infantis era uma tradição da nossa literatura infantil, iniciada por Monteiro Lobato. No artigo “Literatura infantil na ditadura civil-militar: breve discussão acerca de seus aspectos educativos”, Gabriel de Abreu Gonçalves de Paiva, Márcia Sabina Rosa Blum e Mayara Cristina Pereira Yamanoe afirmam que, antes de Lobato, a literatura para crianças que chegava por aqui era uma espécie de adaptação do modelo europeu. Dessa forma, não eram produzidas a partir da realidade nacional.

Segundo Marisa Lajolo e Regina Zilberman, com Lobato, nos anos 1920, a literatura busca interessar a criança, captar sua atenção e diverti-la. Há uma capacidade de trazer a criança para aquela narrativa ficcional e, ao mesmo tempo, para ver a realidade sob a sua perspectiva. O conjunto da obra de Lobato apresenta, de acordo com essas referências, problemas sociais, políticos, econômicos e culturais vistos de forma crítica pelos personagens.

São traços que seriam vistos com frequência entre a nossa literatura, e também ao longo da ditadura militar. Constroem, assim, uma forma autêntica e provocadora de descortinar a realidade para os jovens leitores. Aqui no Clube Quindim desejamos que essa potência continue sempre ativa!


Saiba mais: Medo na infância: como a literatura pode espantar os fantasmas debaixo da cama

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *