Crianças e ocupação do espaço público: por que é importante levar seu filho para a rua

Brincar na rua, curtir o parque da cidade, desbravar os pontos que construíram a nossa história ou só passear por aí. Tem uma série de ações que colocam as crianças em contato com o espaço urbano, e elas são fundamentais: contribuem para que os pequenos ampliem seu conhecimento sobre o lugar onde vivem e para que ocupem o espaço público. De quebra, passam uma mensagem muito importante: a cidade também é das crianças.

É preciso lembrar que o ambiente em que uma pessoa está inserida não é só um dado, mas se integra à formação do indivíduo: define relações, estimula ações e movimentos, ou os restringe. De acordo com o Plano Nacional pela Primeira Infância, publicado em 2010 pela Rede Nacional Primeira Infância (articulação entre organizações, membros da sociedade civil e do governo em defesa dos direitos das crianças), “o ambiente é o ‘terceiro professor’ da criança, no dizer do fundador da pedagogia da educação infantil (abordagem) de Reggio Emilia, Loris Malaguzzi, para quem o primeiro são os pais; o segundo os professores nas escolas”.

Dessa maneira, a qualidade de vida tem relação profunda com a qualidade do ambiente. A desorganização ou deterioração de um espaço, a baixa qualidade de serviços públicos, a forma desordenada de ocupação que vemos nas grandes cidades, entre outros problemas, podem impactar muito no desenvolvimento da infância. E é por isso que as cidades precisam ser pensadas para as crianças também. Assim, valores como segurança e preservação da natureza se tornam ainda mais urgentes. Por outro lado, o olhar da criança humaniza a cidade. Afinal, esse olhar estimula uma maior interação entre as pessoas, a criatividade e um jeito lúdico de aproveitar os espaços.

Criança como cidadã

Todo cidadão tem direito a participar da criação e definição de políticas públicas que afetam suas vidas, e as crianças não são exceção. Alguns documentos e articulações, como a Convenção dos Direitos das Crianças das Nações Unidas, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Marco Legal pela Primeira Infância, defendem que as crianças participem das decisões de uma cidade ativamente. Nesse sentido, é importante ampliar o respeito ao que as crianças dizem, compreendendo que têm muito a colaborar. Ainda que o façam de forma diferente que os adultos.

Como fazer isso? Algumas instituições desenvolvem projetos capacitados para estimular a participação infantil nas decisões da cidade. Com o projeto Criança Fala na Comunidade – Escuta Glicério, por exemplo, crianças do bairro do Glicério, em São Paulo, foram feitas dinâmicas para ouvir o que as crianças de 3 a 11 anos pensavam sobre o entorno. Depois, o espaço sofreu intervenções que refletissem o imaginário infantil, com desenhos, muros pintados e mobiliário lúdico, proporcionando mais vida e alegria para a região.

Essa escuta da infância pode trazer um olhar novo e é fundamental para que todas as parcelas da sociedade estejam contempladas na criação das políticas públicas. O próprio Plano Nacional pela Primeira Infância ouviu crianças de 3 a 6 anos de todo o país no seu processo de realização. Hoje, a Assembleia Legislativa de São Paulo conta com uma Frente Parlamentar totalmente dedicada a esse tema, a fim de articular famílias, mães, pais e crianças para a formulação de políticas públicas e diretrizes que permitam construir uma cidade mais aberta e acolhedora para as demandas da primeira infância. Você pode acompanhar suas discussões aqui.

Ocupação política dos espaços

Crianças espaço público
Livro Manaus
Autora: Irena Freitas
Editora: Edições Barbatana
Autora: Irena Freitas
Editora: Edições Barbatana

Em nosso dia a dia, ações simples, mas que têm uma dimensão política muito importante, já colocam os pequenos em contato com a cidade. Quando você leva seu filho para praças e parques. Ou quando desvenda o centro antigo da cidade com ele. Quando circula nas grandes avenidas ou pedala no espaço urbano, mostra que esses espaços são sim das famílias, dos pais, das mulheres-mães e das crianças. Isso contribui para a construção de uma cultura. E contribui também para a mudança de mentalidades das pessoas que acreditam que as mães e os filhos devem ficar dentro de casa ou que a ocupação dos espaços é perigosa. É assim também que podemos exigir maior segurança, parques mais bem estruturados e outras medidas diretamente relacionadas ao bem-estar dos pequenos.

Estar no espaço público com as crianças é, ainda, uma forma de fortalecer seu senso cidadão, sua formação cultural e identitária. O livro Manaus, que os assinantes do Clube Quindim recebem em outubro, apresenta justamente esse espaço por meio de um passeio pelo centro da cidade. Lindamente ilustrado, revela aos leitores de todas as idades as características culturais, acessam o comportamento das pessoas, a culinária local e outros aspectos fundamentais para consolidar sua relação com o espaço urbano e a cultura. Outra obra já enviada aos leitores do Clube Quindim que trata do tema é o livro Andar por aí, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, que trazem outro delicioso passeio pela vizinhança e ilustra a capa deste artigo. Trata-se de algo simples, mas muito poderoso, e que pode fazer enorme diferença na vida das famílias e das crianças. Que tal desvendá-la nesse livro, ou num simples passeio pela sua cidade?

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