Consumismo: precisamos falar com as crianças sobre isso

“Mãe, compra aquilo?” “Pai, me dá isso?” Quantas vezes, diariamente, você escuta esse tipo de frase? Assim como nós, adultos, as crianças estão inseridas em um mundo mediado pelo consumo, em que a satisfação e o sucesso estão intimamente ligados à nossa capacidade de adquirir coisas. Sim, precisamos falar sobre consumismo dentro de casa. Mas o que há por trás dele?

Livro infantil fala sobre o consumo na contemporaneidade

Consumismo: Os três irmãos de ouro Olga de Dios editora Boitatá
Autora: Olga de Dios
Editora: Boitatá

Esse assunto é complexo e envolve uma série de discussões. O livro Os três irmãos de ouro aborda esse assunto em muitas camadas, que sensibilizam leitores de diferentes idades. A obra de Olga de Dios foi enviada aos assinantes do Clube Quindim no mês de outubro. A partir da lenda da galinha dos ovos de ouro – que, se pensarmos bem, já trata de ganância e ambição, outras facetas do consumo –, a autora espanhola conta o destino de seus filhotes. Feitos de ouro, os pintinhos encontrarão desafios. Um deles habita um espaço de riquezas naturais que passam a ser exploradas. O segundo se torna artista e descobre como o consumo pode esvaziar a capacidade e a riqueza criativa. Já o terceiro vende partes do seu corpo de ouro para poder consumir mais e mais.

Ao ler essa divertida e surpreendente história, é inevitável refletirmos como o consumo invade todas as esferas da nossa vida. Está na forma, por exemplo, como enxergamos a produção artística hoje. O véu do consumo faz com que “devoremos” tudo com pressa. Passa a ser mais importante, assim, ir a todas as exposições da moda, dizer que viu os artistas tidos como importantes, do que simplesmente parar para contemplar uma tela com tranquilidade, reparando em suas nuanças e detalhes.

Da mesma maneira, em escala global, vemos as florestas sendo devastadas para fazer girar a roda da economia, as pessoas sacrificando seu tempo para ter cada vez mais dinheiro, buscando ter o celular ou o carro do momento, as roupas e até os corpos desfilados pelas celebridades. O consumo permeia todos os aspectos da nossa vida. E quanto mais ele se fortalece, mais parecemos nos tornar uma sociedade estressada e deprimida.

Consumo como estilo de vida

Estudioso da cultura do consumo, como Michael Featherstone, apontam como consumir foi incorporado em nossa sociedade como uma maneira de definir estilos de vida. Desse modo, para que você construa sua identidade, torne-se quem quer ser ou para que seja aceito em determinada esfera, precisa adquirir os itens certos. Para entender melhor, basta pensar em tudo o que envolve, por exemplo, criar um filho.

Muitas vezes só nos sentimos bons pais ou boas mães quando podemos colocar a criança na escola particular aprovada por nós, quando compramos roupas confortáveis e de qualidade, quando oferecemos os alimentos que vimos pela propaganda serem os melhores, quando levamos a uma peça de teatro ou exposição, quando damos os brinquedos que eles desejam e por aí vai. No centro de tudo isso há o consumo. E, para que seja possível acessá-lo, muitas vezes passamos longas horas distantes de nossos filhos, nos estressamos com o trabalho, com o tempo no trânsito e em uma série de sacrifícios.

Desvencilhando-se do consumismo

Consumismo
Desconstruir o consumismo ajuda a ressignificar nossa relação com o tempo e o prazer

Como, entretanto, nos desvencilhar de um mecanismo que parece tão enredado entre nós? A resposta é mesmo desafiadora. Mas um primeiro caminho é refletir e levar a reflexão para dentro de casa. Buscar valor e felicidade em atividades que não envolvem comprar é outra possibilidade. Já reparou, por exemplo, como ir ao shopping, um lugar para comprar, se torna um passeio cotidiano, mesmo que tenhamos a chance de frequentar parques? Com isso, é possível sinalizar aos pequenos que o valor da vida não está no que tem valor financeiro, mas nas relações, nos pequenos prazeres cotidianos, na contemplação da natureza, em brincar, dar risada e trocar afeto entre nós.

Para além de repensar o gastar dinheiro, tentar desconstruir o consumismo entranhado em nós ajuda até a ressignificar nossa relação com o tempo e com a experiência do prazer. Afinal, se por um lado, na sociedade de consumo, escoamos o tempo que temos para ganhar dinheiro, por outro, buscamos obter uma sensação cada vez mais intensa e imediata de prazer. Tirar o consumismo do centro da vida implica também voltar nossa atenção para dentro de nós. Implica em deixar de esperar que a satisfação venha por meio de algo que vamos comprar – um carro, uma casa, uma viagem, uma festa etc. Trata-se de um processo desafiador, mas fundamental para semear um maior bem-estar, relações mais saudáveis e a preservação do planeta.

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