Confira no Quindim como foi falar de Literatura Infantil na Flip

O Clube de Leitura Quindim preparou uma super programação na Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2018 para discutir a literatura infantil e juvenil, a infância, a juventude, a educação e a cultura. A Flip aconteceu do dia 25 a 29/07 e foram dias lindos, momentos emocionantes, com muita troca de literatura, conhecimento, informação e formação.

Todas as mesas de debate aconteceram na Casa Libre & Nuvens de Livros e estavam lotadas! Confira como foram esses momentos lindos!

 

Como garantir a autoria no livro infantil

A programação na Flip para refletir sobre questões fundamentais na formação de jovens leitores começou na sexta-feira, dia 27, com a mesa Como garantir a autoria no livro infantil.

O Quindim trouxe para discutir essa temática os convidados: Roger Mello, escritor e ilustrador ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen – Nobel da Literatura Infantil e Juvenil; Rosana Rios, importante escritora para crianças e jovens; Rosana Mont’Alverne, escritora, editora da Aletria e presidente da Câmara Mineira do Livro, e Gil Vieira Sales, editor da Editora do Brasil. Mediando a conversa estava o ex-diretor da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura, Volnei Canônica.
Os convidados abordaram temas como a autoria no texto verbal e no texto visual, como garantir uma obra de qualidade em compras de governos, as censuras que estão acontecendo com o politicamente correto e a necessidade de dialogar com as famílias para mostrar o valor e a importância da literatura infantil e juvenil no desenvolvimento das crianças.

Para o ilustrador Roger Mello, “Autor é todo mundo que participa da produção de um livro: é quem o leva, quem encontra meios, em um país como o nosso, de fazer o livro chegar, é quem edita, quem diagrama. Eu, como ilustrador, acho que a maior invenção da história é a escrita. A escrita consegue trabalhar o pensamento e a ficção de maneira codificada, fazendo com que você converse com você mesmo. O livro é um objeto interativo antes da interatividade.”

Já a escritora Rosana Rios apresentou o leitor como um coautor importante na literatura: “Para mim, o coautor é o leitor. O livro só está completo quando uma criança ou jovem me dá um feedback. Para mim a autoria passa pelo leitor. Não podemos nos deixar censurar. Tem temas que pegam para professores, pais e editores, mas que as crianças acham tremendamente natural.”

O  editor Gil Sales apresentou o olhar inaugural da criança. “O livro infantil é uma descoberta, estamos convidando o leitor a ler com os olhos da descoberta, da fantasia. Com isso, você pode quebrar os dogmas que você carrega. A arte da palavra construída para a criança pode descortinar um novo mundo. Muitas vezes, o adulto não teve essa experiência de aproximação com a fantasia porque somos ensinados a pensar muito exatamente, fugimos do pensamento livre.”

Uma questão bem importante e que o Quindim trabalha muito é a relação do adulto com a literatura. Rosana Mont’Alverne também abordou essa questão, “Na Aletria, que nasceu com esse DNA de contadores de histórias, batemos nesta tecla: não estamos lá só para fazer livros. Temos que ajudar os adultos a fazer escolhas literárias, a mediar leituras e a não atrapalhar as crianças.”

Para aprofundar o tema, assista ao vídeo integral aqui.

 

Curadoria, uma conversa olho no olho: na era da indicação digital

No dia 28, sábado, a Flip, recebeu o bate-papo sobre a escolha de livros infantis. A mesa Curadoria, uma conversa olho no olho: na era da indicação digital trouxe as blogueiras: Padmini, do Bamboleio; Isabella Zappa, de Na corda bamba; Malu Carvalho, do Mergulho Literário; Daisy Carias, de A cigarra e a formiga e a editora e mestre em literatura Renata Nakano, cofundadora do Clube Quindim. A coordenação das conversas ficou a cargo da professora e produtora cultural Lêda Fonseca.

As convidadas contaram para a plateia como se tornaram leitoras e porque escolheram as redes digitais para ajudar na formação de jovens leitores e suas famílias. Falaram sobre a importância de indicar bons livros para pais e crianças nesse mundo de opções que o mercado editorial oferece.

No início do papo, Lêda Fonseca falou um pouco sobre o mercado e a importância da escola como mediadora: “A escola sempre vai ser uma grande mediadora de leitura. Até porque sabemos que, no nosso país, muitas vezes as crianças só têm contato com o livro ali. Então as brigas para voltar o PNBE, para manter políticas públicas de leitura precisam permanecer, porque a maior parte das nossas crianças estudam em escolas públicas e tem acesso à literatura pela escola”.

Já Malu Carvalho pontuou a importância do contato do adulto com a literatura infantil: “Nunca é tarde para um adulto ser capturado pela boa literatura. Vejo que o maior empecilho é a formação desses mediadores. Mas os pais, quem materna as crianças, não são obrigados a saber critérios qualitativos para as crianças. Precisam ler, trazer o afeto, a intenção e a leitura.”

Isabella Zappa falou sobre a busca dos pais por literatura: “Muita gente escreve: ‘Você tem um livro para meu filho parar de bater? Ou para a competitividade?’. Eu digo tem e não tem, porque literatura é mais que isso. Um livro de imagens, por exemplo, para um bebê vai ser uma espécie de galeria de artes, a primeira referência que ele vai ter”.

Padmini completou: “Meu objetivo é falar com as famílias e educar o olhar dessas famílias, assim como o meu foi educado: sair desse utilitarismo e olhar o livro como um todo – imagens, texto, projeto gráfico -, cativá-los a saírem desse universo”.

As participantes lembraram que em grande parte não é a criança que escolhe, mas os pais e professores. Por isso a importância da família na formação do leitor, que acaba sendo muito delegada à escola. Como colocou Renata Nakano, “o afeto é o maior formador de leitor”, e por isso a família tem um papel importantíssimo na mudança do cenário da leitura no país.

Infelizmente, a internet não é boa durante a Flip. Mas você pode assistir aos dois vídeos completos sobre a mesa em nossa página no Facebook, a parte 1 e a parte 2.

 

No domingo, dia 29, o Quindim preparou dois grandes encontros!

 

Os medos ao escrever livros para crianças e jovens

A primeira mesa de domingo, com o tema Os medos ao escrever livros para crianças e jovens, contou com as escritoras Andrea Viviana Taubman, Anna Claudia Ramos e Penélope Martins, e com a mediação da Diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda.

Nessa mesa, foram abordados assuntos importantes, como temáticas, natureza dos gêneros infantis e juvenis e também como a censura de temas, palavras e imagens está agindo nos livros infantis e juvenis.

No início da mesa, Anna Claudia Ramos compartilhou a experiência de escrever sobre temas considerados polêmicos: “Quando eu escrevi sob a perspectiva de uma personagem feminina sobre relacionamentos homossexuais, fui execrada. Um jornalista me perguntou: ‘Você não acha que pode induzir o público jovem a ser homossexual?’. Eu respondi com outra pergunta: ‘Alguém perguntou para Agatha Christie se o livro dela poderia formar assassinos em potencial?’. Ou seja, quando a gente opta por falar de certos temas, como o abandono, estamos falando da vida, porque ela é cheia de nuances, é paradoxal. Temos que ter coragem de falar disso”.

Andrea Viviana Taumbman relatou sua experiência com escolas do rurais do Rio de Janeiro: “Estive em escolas da roça, e lá a gente percebe a importância do que a gente fala. Muito do que as crianças têm acesso acontece na escola. Se pudermos nos doar e dividir nossas histórias, é formidável. E como isso vai acontecer muitas vezes foge à nossa capacidade”.

Penélope Martins discutiu também a importância de tocar nesses temas e defender direitos por meio da escrita: “A escritora ou escritor que fecha os olhos para o seu tempo não precisa ser lido. A criança precisa ler quem se posiciona. Como uma criança vai se posicionar sobre um abuso se ela só acessa o blasé, o superficial?”. Sobre a formação de leitores, Penélope afirmou: “Nossa população é muito da oralidade, do causo, então temos sim familiaridade com a leitura. Nós somos leitores. As pessoas só não sabem disso. Queremos sensibilizar o público para a leitura de livro para que as pessoas tenham tempo com o silêncio, que é uma conexão mais profunda, uma reflexão sobre a linguagem”.

Confira a LIVE com o vídeo completo da mesa.

Slam de ilustração: o desenho é pensar com o traço

Para encerrar a programação dessa edição da Flip, o Clube Quindim, preparou um momento especial envolvendo muita ilustração, música, ficção e participação da plateia. Com o título, Slam de ilustração: o desenho é pensar com o traço, o público vibrou com os ilustradores convidados: Anabella López, Lúcia Hiratsuka, Luciana Grether, Patrícia Auerbach, Raquel Matsushita, Sérgio Alves e Thais Linhares.

Os ilustradores fizeram suas performances ao embalo da trilha sonora especialmente criada pela instrumentista Liza K, da Banda Mulheres de Chico.

O Slam de Ilustração é uma criação do diretor do Centro e do Clube de Leitura Quindim, Volnei Canônica; da curadora da Feira do Livro de Xangai (China), Carolina Ballester e dos ilustradores Roger Mello (Brasil) e Piet Grobler (África do Sul).

Na performance, os convidados foram desafiados, por meio de uma temática surpresa, e criaram uma linda narrativa visual. Durante a performance, um ilustrador intervém no desenho do outro mudando o traço e o pensamento, criando uma história coletiva com diferentes olhares.
Um jogo bastante interativo, com a colaboração das crianças e dos adultos que ajudaram a dar o ritmo da brincadeira e a manter a performance dos ilustradores na batida do seu entusiasmo.

O Slam foi uma grande diversão com a participação de todos. Confira o vídeo de como foi.

 

Pela infância e pela literatura infantil e juvenil <3

A Flip é um dos maiores eventos literários do Brasil. Discutir a literatura para crianças e jovens nesse espaço é muito importante. Segundo o cofundador do Clube Quindim Volnei Canônica, “Estamos vivendo um momento de desvalorização da infância. Se perdeu o caráter filosófico que vem com a criança desde o nascimento, e se aplica um olhar colonizador. Como se a criança fosse uma folha em branco e coubesse ao adulto pontuar tudo o que ela deve ser. Proteger as crianças é entregar a informação, o conhecimento, a possibilidade de ficção, de trabalhar isso dentro delas, e de como elas trabalham seu mundo interno para se proteger deste mundo, que é um mundo voraz.”

Foram dias lindos de conversas e de compartilhamento do sonho de levar literatura de qualidade para as crianças e os jovens país afora e juntos construirmos um Brasil de leitores. E sim, o Clube de Leitura Quindim já está pensando na Flip 2019!


Créditos: fotos do Slam – AC Junior / fotos bate-papos: divulgação Quindim

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