Brincar com uma criança: o que isso pode ensinar aos adultos

Quando foi a última vez em que você brincou? E não vale aquela companhia protocolar ao brincar da criança, meio espiando o celular, a televisão, pensando nas pendências do trabalho: pense a última vez em que realmente se deixou levar por uma brincadeira imersiva de verdade, esquecendo tudo o que deixou para trás. Difícil, não é mesmo? A verdade é que, com a idade, as cobranças e a dureza da vida adulta, acabamos nos esquecendo da capacidade de brincar que era tão poderosa na infância. Mas estar próximo das crianças nos oferece uma oportunidade para nos reconectarmos com essa deliciosa prática.

Um dos livros da Seleção do Clube Quindim de novembro pode ser usado para ilustrar isso. Em Onde está Tomás?, de Micaela Chirif e Leire Salaberria, acompanhamos como o pequeno Tomás realmente mergulha na brincadeira. Nesse processo, a partir de um relógio de gorila da cozinha, por exemplo, ele imagina estar cercado por esses animais. Já diante dos pássaros da cortina do banheiro, se vê voando lado a lado com as aves. Essas ações dizem muito sobre capacidade infantil de brincar de maneira imersiva, ressignificando objetos e, assim, construindo um repertório de tudo que está ao redor. Tão frequente na infância, esse mergulho pode ser muito benéfico para todas as idades.

A importância do brincar

Muitos adultos veem o brincar só como uma forma de se divertir e passar o tempo – somente 19% dos brasileiros acham que brincar e passear são ações importantes para as crianças de até 3 anos, de acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Entretanto, uma série de estudos e teóricos muito respeitados apontam a importância da atividade para o desenvolvimento infantil e a preparação para a vida adulta. Tanto que o brincar foi incluído na Declaração Universal dos Direitos da Criança da Unicef.

Para além de ser uma atividade divertida, o brincar permite que a criança movimente e conheça melhor o próprio corpo. Além de estimular a cooperação e a negociação, ensinar sobre respeito e diversidade, desenvolver a atenção e o autocontrole, permite experimentar a felicidade, incentiva o trabalho em equipe, promove a criatividade e a imaginação, favorece o raciocínio e estabelece regras e limites. Muitos benefícios! Aliás, é também pelo brincar que a criança entende o mundo ao seu redor e as práticas da vida adulta.

A brincadeira através do tempo

Segundo a educadora e doutora em Antropologia Adriana Friedmann, “brincadeiras e jogos trazem à tona valores essenciais dos seres humanos; dão lugar a uma forma de comunicação entre iguais e entre as várias gerações; são instrumentos para o desenvolvimento e pontes para diversas aprendizagens; possibilidades de resgate do patrimônio lúdico-cultural nos diferentes contextos socioeconômicos”. A especialista ainda lembra que o brincar sempre fez parte da história da humanidade. Em diferentes culturas do mundo, por mais de sete mil anos, até o fim do século XVIII, o brincar acontecia entre adultos e crianças e acontecia nas ruas, nas feiras, nos rios e campos.

Quando surge a sociedade industrial, mais ou menos no início do século XIX, a atividade lúdica passa a fazer parte da vida das crianças apenas, e entra nas escolas com funções pedagógicas, perdendo o caráter livre. Hoje, apesar de observarmos uma recente revalorização da importância do brincar, torna-se cada vez mais difícil encontrar espaços para leveza e descontração em meio a um dia a dia pesado e a exigências maiores de consumo, dinamismo e alto rendimento. O resultado disso são índices cada vez maiores de estresse entre nós, além do crescimento de doenças como depressão.

Quem brinca os males espanta!

Nesse contexto, brincar poderia representar uma cura, conforme sugere o documentário Tarja branca, dirigido por Cacau Rhoden, com produção de Maria Farinha Filmes e lançado em 2014. O filme propõe uma espécie de revolução pela brincadeira e defende que brincar pode curar muitos males do mundo moderno. Reunindo depoimentos de estudiosos do tema, humoristas, palhaços e agentes da cultura popular, aponta que a diversão fazia parte das práticas tradicionais brasileiras, e que se perdeu ao longo do tempo, o que teria contribuído para o estado de tédio e estresse em que as novas gerações estão inseridas.

Assistir ao documentário é profundamente inspirador, e faz pensar sobre a importância de resgatar tradições e uma relação mais harmoniosa com o tempo. Quando corremos o tempo todo, adotando o ritmo do mundo moderno sem nunca refletir sobre ele e resta pouco para aproveitar o que a vida tem de melhor: o afeto, os momentos de prazer e alegria. Conservá-los em nossa vida é essencial para a saúde e para o bem-estar, mantendo sempre viva a criança que nos habita.

Pode ser difícil, em um primeiro momento, entrar em contato com isso – como é desafiadora, aliás, toda mudança de hábito –, mas você pode começar resgatando as práticas que geram felicidade, como desenhar, pular corda ou jogar um jogo. Pode também mergulhar fundo na brincadeira com as crianças, aprendendo com sua capacidade de entrega e dedicação à alegria. Então que tal começar hoje mesmo?

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