Brincadeiras de criança: brinquedos e espaços por faixa etária.

Brincadeiras de criança devem ser levadas a sério? Pode parecer algo simples, e é, mas brincar livremente representa uma das ações mais importantes da vida da criança. Apesar de essa ideia estar mais popularizada hoje, na prática, muitas escolas e pais reproduzem o que a professora Tânia Ramos Fortuna chama de “lógica colonizadora do tempo”. Isto é, uma gestão das atividades da criança, o que a impede de ficar “sem fazer nada” ou que brinque como quiser. Mas o que esse brincar livre significa e como promovê-lo?

O Clube Quindim foi buscar informações sobre o assunto com a especialista Tânia Ramos, pedagoga e coordenadora do programa “Quem quer brincar?”, da UFRGS.

 

Qual a função do brincar?

Tânia explica que a necessidade de brincar não é exclusiva dos humanos, e vale para os animais sociáveis, como gatos, cães e até elefantes. Além disso, a brincadeira nos acompanha ao longo da vida, não só na infância. Do ponto de vista psiconeurológico, brincar está ligado à produção de sinapses, à comunicação entre os neurônios, e a zonas específicas do cérebro. Na infância essas sinapses contribuem para o amadurecimento neurológico. A brincadeira também é um fator importante de sociabilidade e contribui para a vida futura, na medida em que se treinam atividades da vida adulta.

No entanto, conforme Tânia esclarece, é preciso pensar o brincar para além da sua função: “Na psicologia, o brincar é o que chamamos de atividade autotélica. O fim é nela mesma. Quem brinca o faz só por brincar. Isso entra em conflito em uma época em que tudo tem que gerar resultados e ter produtividade.”

 

Faz diferença ter brinquedo?

O brincar pode ser sem brinquedos, ou pode ser com materiais estruturados, como jogos e carrinhos; semiestruturados, como aquele que a pessoa vai montando ou criando; ou materiais não estruturados, como rolos de papel higiênico. Para a especialista, esse brincar livre, tão importante para o desenvolvimento, vale para qualquer uma dessas modalidades – acontece do mesmo modo quando a criança não usa outro objeto ou quando está em interação com um desses materiais.

 

A importância do espaço

A professora Tânia conta que as pesquisas recentes apontam que a organização do espaço de brincar é determinante para o comportamento da criança. Um caso é o do arquiteto francês André Legendre, que registrou como crianças de 2 e 3 anos se comportavam em diferentes locais. Em espaços atulhados de objetos, os pequenos buscavam o adulto constantemente, abandonando brinquedos interessantes.

Já onde havia espaço livre no meio e prateleiras com brinquedos nas laterais, as crianças corriam no meio, mas não se concentravam em nenhum brinquedo. Essa configuração, bem comum em escolas, não permitiu a realização de brincadeiras mais complexas – aquelas mais duradouras e que envolvem diversas habilidades.

A terceira organização, chamada de semiestruturada, mostrou-se a mais propícia. Ela tinha brinquedos nas paredes e estantes baixas, que não tiravam a visão geral dos pequenos, além de criar cantos e zonas para a brincadeira.

Brincadeiras X Faixas etárias

A professora ressalta que, em se tratando do brincar, não dá para ser prescritiva ou taxativa. Claro que há comportamentos característicos em diferentes faixas etárias. Mas é importante lembrar que as crianças são diferentes e demonstram desenvolvimentos diferentes. Aliás, Tânia conta que muitas vezes os pequenos nos surpreendem na sua interação com os brinquedos, para além das recomendações etárias dos produtos.Isso vale também para a leitura, enfatiza Renata Nakano, cofundadora do Clube Quindim.

Ilustração de Liniers

De 0 a 2 anos: o movimento e a descoberta do tato são importantes nesse momento, além do interesse pelo som. Brinquedos que permitem exploração tátil, olfativa, visual e sonora são boas recomendações. Bem como brincadeiras como jogos de linguagem e cantigas que envolvam repetições. Os chocalhos também são um ícone dessa faixa etária, usados pela infância ao longo da história em várias civilizações. Brinquedos de encaixar e interações lúdicas com a água são outras recomendações.

 

Ilustração de Rafael Yockteng

De 2 a 4 anos: é o apogeu da fantasia e da imaginação. As brincadeiras serão com imitação, faz de conta e muito movimento, já que as crianças têm maior autonomia corporal. Brincam com carrinhos, fantoches, cabanas, bonecos, jogos de construção. Instrumentos musicais e utensílios domésticos ­– indicados para meninos e meninas, é claro – são outras boas indicações. Usam, ainda, materiais de escrita, como tintas, lápis grossos, blocos de papel etc.

 

 

Ilustração de Ziraldo

De 4 a 6 anos: a questão das regras nas brincadeiras se consolida. O brincar junto também aparece mais, uma vez que, até os 3 anos, como a professora diz, os pequenos brincam lado a lado, mas nem sempre juntos. Concentram-se mais tempo nas atividades e demonstram maior interesse por letras e números. A partir dos 5 anos, especialmente, percebe-se um crescimento da importância do grupo. O uso de bicicletas, triciclos, patinetes e afins também se integram ao interesse delas por movimento. Bonecos fazem parte, já num contexto mais fantástico, assim como dinossauros e super-heróis. Quebra-cabeças de até 50 peças podem ser boas recomendações.

 

Como escolher um bom brinquedo

Tânia indica dois critérios para identificar bons brinquedos:

  • Que dão espaço para a ação e não fazem tudo pela criança.
  • Com potencial instigante, são misteriosos e rendem sempre muitas brincadeiras. Claro que, se forem totalmente desconhecidos, vão gerar indiferença, então este nível de provocação deve ser algo próximo do universo infantil.

 

Neste vídeo, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal nos dá dicas sobre o que fazer na hora de brincar:


As ilustrações deste artigo são dos livros Chapeuzinho Amarelo, Emiliano e Os sábados são como um grande balão vermelho. Você pode encontrar mais informações sobre as obras acessando a Seleção Quindim.

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