Alimentação seletiva: entenda o fenômeno que deixa os pais de cabelo em pé

A introdução alimentar é um dos momentos mais esperados do desenvolvimento do bebê. Lembro, como se fosse ontem, a primeira vez que os meus filhos experimentarem alimentos diferentes do leite: a gente prepara a frutinha com todo cuidado, varia a oferta dos legumes, faz a papinha com tudo de mais natural, seleciona, na medida do possível, o que é orgânico, arrasa no equilíbrio alimentar. Na maior parte das vezes, o bebê recebe tudo com o bocão aberto, rejeitando só um ou outro elemento.

Mas, quando menos se espera, a criança chega naquela fase da alimentação seletiva. Qualquer verdinho no prato passa a ser motivo para escândalo, a verdura que ele amava até o dia anterior não suporta mais, enrola horas com a refeição diante de si, come pouco e deixa pais e mães de cabelos em pé. O assunto é tão recorrente dentre as preocupações familiares que o Clube Quindim selecionou um título que aborda justamente este universo neste mês: Hoje não quero banana. E, para entendermos melhor como essa fase se dá e como podemos driblá-la, consultamos Jaqueline Sclearuc, psicóloga da equipe do Instituto de Desenvolvimento Infantil, que trabalha dificuldades alimentares infantis. Confira.

O que é a alimentação seletiva?

“Ela é caracterizada por recusa alimentar, pouco apetite e desinteresse pelo alimento”, diz Jaqueline. De acordo com a especialista, é normal que a criança demonstre comportamentos seletivos em certas etapas do seu desenvolvimento.

Quando ela costuma acontecer?

A especialista esclarece: “Um desses momentos coincide quando a criança começa a descobrir o mundo. Por volta dos dois anos, ou melhor conhecida como a fase do ‘terrible two’, na qual a criança inicia o aprendizado da autonomia e descobre o prazer de realizar por si só, fazendo escolhas, inclusive na alimentação. Se bem compreendida pelos pais e cuidadores, tende a ser pontual e temporária”.

A seletividade alimentar aparece em níveis diferentes?

Jaqueline conta que há um grupo de crianças que apresenta uma dificuldade alimentar maior. Essas escolhas alimentares restritas podem indicar um desconforto gastrointestinal, falta de habilidade para comer ou dificuldade de interpretar estímulos sensoriais dos alimentos. Ela completa: “Pesquisas demonstram que 30% de todas as crianças com desenvolvimento normal podem apresentar algum desafio alimentar, sendo que metade delas irão superá-lo sem ajuda específica”. Veja, na tabela a seguir, a diferença entre os dois comportamentos:

SELETIVIDADE ALIMENTARSELETIVIDADE ALIMENTAR EXTREMA
Diminuição da variedade ou quantidade alimentar (consome 30 ou mais alimentos)Aceitação restrita ou pouca variedade de alimentos (consome menos de 20 alimentos)
Aceita um alimento por categoriaRecusa categorias inteiras
Tolera novos alimentos no pratoApresenta comportamentos de fuga ou medo quando os alimentos são apresentados
Com resistência prova alimentosCome alimentos diferentes da família
Participa da refeição em famíliaNão participa das refeições em família
Seleciona alguns alimentos para comer por determinado tempoNão aceita a diferente apresentação dos alimentos que consome

Como os pais podem lidar com alimentação seletiva?

Atravessar essa fase pode ser muito estressante, especialmente porque, além da preocupação com a saúde da criança, os pais se sentem pressionados por amigos e pela família. Para driblar o momento da alimentação seletiva com mais tranquilidade, Jaqueline dá as seguintes dicas:

– Evite batalhas! Crie um ambiente com o mínimo de estresse. Quanto mais os pais pressionam, menos a criança come. Basta pensar que, quando estamos estressados, nossa vontade de comer pode diminuir.

– Ajuste sua expectativa com relação à alimentação e ao crescimento dos seus filhos.

– Faça refeições em família. Muitas pesquisas comprovam os benefícios e a importância desses momentos. Eles são únicos e proporcionam conexão e troca familiar, muito além do simples significado nutricional.

– Evite o uso de distrações. O excesso de estímulos, como tablets, TV e brinquedos, pode tirar o foco da alimentação, diminuir a vontade de comer e atrapalhar nos registros de prazer em relação aos alimentos.

– Envolver a criança na refeição é fundamental! Chame-a para o preparo da comida e do ambiente. São momentos em que ela tem a oportunidade de estar perto do alimento sem a pressão para comer, e se familiarizar com as múltiplas exposições dos alimentos.

– De qualquer maneira, a orientação com um profissional especializado em alimentação infantil pode ser importante para ajudar as famílias a lidarem com a seletividade da criança e com o estresse. Dependendo do caso, pode ser preciso buscar mais de um profissional, como gastropediatra, fonoaudiólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional ou psicólogo.

Confira 5 livros enviados pelo Quindim que falam sobre alimentação:

Hoje não quero banana

Hoje não quero banana Sylviane Donnio Dorothée de Monfreid WMF alimentação seletiva
Hoje não quero banana
Escritora: Sylviane Donnio
Ilustrações: Dorothée de Monfreid
Editora: WMF

Aquiles sempre come banana no café da manhã. Mas um dia ele enjoa e pede para mudar o cardápio: ele quer comer uma criança. Os pais tentam dissuadi-lo da ideia, oferecem salsicha e até bolo de chocolate. Mas Aquiles só quer criança. Alguns adultos podem se assustar ao ver em um livro infantil um personagem que deseja comer criança. Trata-se porém de uma situação bastante comum nos contos de fadas – basta lembrar do conto João e Maria, cuja bruxa tenta engordar as crianças antes de devorá-las.

Espaguete

espaguete davide calí belisa monteiro
Espaguete
Autor: Davide Calí
Editora: SM

Nesta obra, fios de espaguete se transformam em bigode, rabo de cavalo, cabelos, chuva… Em conjunto com desenhos esquemáticos e frases curtas, os fios dão forma e sentido a elementos do cotidiano infantil. É um livro divertido que brinca com o ato de se alimentar e com a forma de elementos cotidianos, favorecendo a percepção e estimulando o prazer da leitura. É importante treinarmos nosso olhar para vermos como criança, nos livrando de conceitos e formas muito fechadas para conseguirmos enxergar de modo livre a realidade que nos cerca.

Uma lagarta muito comilona

uma lagarta muito comilona
Uma lagarta muito comilona
Autor: Eric Carle
Editora: Callis

Quem já viu uma lagartinha esfomeada bem de pertinho? O que será que ela come para satisfazer a sua fome? Este é um clássico da literatura infantil mundial. Trata-se de uma história que fala sobre a vida e suas transformações. O nascimento da lagarta, seu desenvolvimento e sua metamorfose em borboleta mostram para a criança a sua própria trajetória.

É hora do almoço

é hora do almoço rebecca cobb
É hora do almoço!
Autora: Rebecca Cobb
Editora: Melhoramentos

O livro É hora do almoço! é um convite ao imaginário. Nas primeiras páginas, o personagem brinca com suas mãos criando um crocodilo de
sombra e já nos convida a aguçar todos os nossos sentidos. Nas próximas páginas, de forma leve, a autora vai apresentar várias questões que permeiam o universo infantil no dia a dia relacionado a hora das refeições. É uma ótima leitura para a criança que está na fase da alimentação seletiva.

Comilança

comilança fernando vilela
Comilança
Autor: Fernando Vilela
Editora: DCL

Nesta obra, Fernando Vilela apresenta os animais da Floresta Amazônica em uma cadeia alimentar com final bastante inusitado. Na infância, há muitos jogos populares conhecidos que nada mais são do que lengalenga, ou conto acumulativo. Trata-se de uma forma simples da literatura bastante frequente na literatura infantil. Por causa da repetição da estrutura das frases, junto com a sedução das rimas, esta obra torna-se uma deliciosa leitura para aqueles que estão adquirindo vocabulário e aprendendo as primeiras letras.


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