10 poemas para uma criança amar poesia

A poesia é uma importante aliada a mães e pais que desejem oferecer visões de mundo amplas às crianças. Ela contribui não só no desenvolvimento intelectual mas também no desenvolvimento humano. Por proporcionar grande experimentação com as palavras, crianças em fase de alfabetização costumam adorá-la. Segundo a professora Ana Maria Lisboa de Mello, especialista na obra poética de Cecília Meireles:

 

“A criança sente prazer em vivenciar a semelhança e os contrastes sonoros entre palavras, independente de sua significação. Por isso, o uso de recursos como trocadilhos, onomatopeias, aliterações, assonâncias, rimas, anáforas, aliterações e outros fatores de ritmo suscitam a fruição textual.”

 

Mas se a poesia é tradição no processo de alfabetização, hoje ela se torna mais que necessária. Em era de fake news, a poesia desenvolve a linguagem e o pensamento crítico, competências fundamentais para se ter autonomia num mundo de visões recortadas e polarizadas.

E para contagiar ainda mais os pequenos leitores, o Clube de Leitura Quindim trouxe um delicioso “petisco poético”. Listou 10 poemas de livros  infantis de 3 livros que toda criança precisa conhecer! São obras escolhidas por Ziraldo, Ricardo Azevedo, Marisa Lajolo e outros grandes nomes da literatura e da educação, que selecionam mensalmente para o Clube Quindim livros infantis que toda criança merece ler.

 

 Conheça mais sobre os livros entregues pelo Clube de Leitura Quindim em 2017 e 2018. Faça parte do Clube de Leitura Quindim e ajude a transformar o Brasil em um País de leitores!

 

 


Ou isto ou aquilo

                               Cecília Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

 

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e não gasto o dinheiro.

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

 

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

 

 

A bailarina

                               Cecília Meireles

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

 

Não conhece nem dó nem ré

mas sabe ficar na ponta do pé.

 

Não conhece nem mi nem fá

mas inclina o corpo pra cá e pra lá.

 

Não conhece nem lá nem si,

mas fecha os olhos e sorri.

 

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar

e não fica tonta nem sai do lugar.

 

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

 

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

 

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.

 

 

Cantiga da babá

                               Cecília Meireles

Eu queria pentear o menino

como os anjinhos de caracóis.

Mas ele quer cortar o cabelo,

porque é pescador e precisa de anzóis.

 

Eu queria calçar o menino

com umas botinhas de cetim.

Mas ele diz que agora é sapinho

e mora nas águas do jardim.

 

Eu queria dar ao menino

uma casinhas de arame e algodão.

Mas ele diz que não pode ser anjo,

pois todos já sabem quem ele é índio e leão.

 

(Este menino está sempre brincando,

dizendo-me coisas assim.

Mas eu bem sei que ele é um anjo escondido,

um anjo que troça de mim.)

 

 

A égua e a água

                               Cecília Meireles

A égua olhava a lagoa

com vontade de beber água.

 

A lagoa era tão larga

que a égua olhava e passava.

 

Bastava-lhe uma poça d’água,

Ah! mas só daqui a algumas léguas.

 

E a égua a sede aguentava.

 

A égua andava agora às cegas

de olhos vagos nas terras vagas,

buscando água.

 

Grande mágoa!

 

Pois o orvalho é uma gota exígua

e as lagoas são muito largas.

 

Poemas extraídos do livro Ou isto ou aquilo (escritora Cecília Meireles, ilustrador Odilon Moraes, editora Global).

Entregue em janeiro de 2017 pelo Clube Quindim.


Quero-quero

                               Lalau

Quero,

Quero voar.

Quero,

Quero cantar.

 

Sou porteiro

De fazendas.

Sou guardião

Das terras.

 

Tudo o que

Espero

É ser sempre

Quero-quero

 

Gaivota

                               Lalau

Gaivota

Vive lá no céu.

 

Gaivota vai,

Gaivota volta,

Gaivota vai,

Gaivota volta,

 

E os ovos?

 

Quando é que

A gaivota

Bota?

 

 

ABC da passarada

                               Lalau

Andorinha

Bem-te-vi

Coleirinha

Dorminhoco

Ema

Falcão

Grauna

Harpia

Inhambu

Jacutinga

Lindo-azul

Mainá

Noivinha

Oitibó

Pintassilgo

Quiriri

Rolinha

Sabiá

Tico-tico

Uirapuru

Viuvinha

Xexeu

Zabelê

 

Poemas extraídos do livro Fora da Gaiola (escritor Lalau, editora Companhia das Letrinhas).

Entregue em novembro de 2017 pelo Clube Quindim.


Esperança

                               Roseana Murray

Muitos são os que carregam

água na peneira,

como disse o poeta

Manoel de Barros,

e esperança como estrela

na lapela.

Muitos são os que acreditam

em coisas simples e limpas,

em coisas essenciais,

amor, amizade, delicadeza,

paz,

e tantas outras palavras,

antigas e urgentes.

 

 

Fonte

                               Roseana Murray

Como trapezista

alcançar o outro

num salto:

mergulhar em seus olhos,

navegar até o fundo.

 

Alcaçanr o outro

no que ele tem

de mais belo,

de luz e mel,

delicadeza e mistério.

 

E, então, beber a água

limpa

dessa fonte.

 

 

Gavetas

                               Roseana Murray

Com delicadeza

abrir as gavetas

que guardam

as palavras de seda.

 

Deixá-lás sempre

ao alcance

de um sopro,

prontas para o voo,

para o ouvido,

para a boca.

 

Palavras de seda

sao como borboletas

douradas

quando pousam

no coração do outro.

 

Poemas extraídos do livro Manual de delicadeza de A a Z (escritora Roseana Murray, editora FTD).

Entregue em outubro de 2017 pelo Clube Quindim.


 

* A imagem que ilustra este post é de autoria de Jessie Willcox Smith, reconhecida ilustradora norte-americana cujo trabalho em livros infantis compõe o grupo conhecido como o da Era de Ouro da Ilustração.

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