Sensação das redes, escritora Elisama Santos conversa com o Quindim sobre educação não violenta e a importância da leitura

 

É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. Talvez você já tenha ouvido essa frase, que costuma ser atribuída à tradição de vários países da África. E quem já teve filhos sabe o quanto ela é verdadeira: sem rede de apoio, o dia a dia da maternidade, que já é rodeado de desafios, parece se tornar ainda mais angustiante. No entanto, hoje, com a força e a presença das redes sociais em nosso cotidiano, ficou mais fácil entrar em contato com mães que vivem dilemas como os nossos. Foi nesse contexto que Elisama Santos (http://reolhar.com.br/), escritora, educadora parental pelo Positive Discipline Institute e consultora em educação não violenta, se tornou tão conhecida.

 

Quem é Elisama Santos:

Elisama, mãe de Miguel e Helena, contou à equipe do Quindim que, com o nascimento de seu primeiro filho, ela começou a refletir sobre a infância e buscar informações sobre autoconhecimento e educação não violenta. Hoje, é autora dos livros “Tudo eu! Confissões de uma mãe sincera” e “{Re}Olhar – Acolhendo quem somos e os filhos que temos”. Também escreve sobre o seu dia a dia materno nas redes sociais – seus textos e vídeos fazem tanto sucesso que Elisama é acompanhada de perto por mais de 13 mil seguidores em seu Instagram e por mais de 63 mil no Facebook. Tudo isso porque a autora busca comunicar suas angústias com honestidade e empatia, o que gera conexão com muitas outras mulheres.

 

Veja, a seguir, nosso bate-papo na íntegra: 

Quindim: Qual é o foco do seu trabalho hoje, Elisama?

Elisama Santos: Hoje o foco do meu trabalho é ajudar pais e mães a lidarem melhor com os entraves da relação com seus filhos e com os problemas disciplinares. Na realidade, convoco os educadores – não só pais e mães, mas professores, pessoas que lidam com a criança – a enxergarem a infância de uma maneira diferente. Temos esse olhar de que a criança tem de ser obediente, um olhar imediatista sobre a educação. Penso que temos que passar a ter um olhar mais a longo prazo, mais compassivo e empático com o desenvolvimento da criança. O que não quer dizer que seremos permissivos, que normalmente é o que as pessoas entendem. É um equilíbrio entre a assertividade e a amorosidade.

 

Q.: Você se comunica com pais e mães e fala com sinceridade sobre momentos difíceis da rotina de quem cria filhos. O que você busca comunicar para essas pessoas?

E.S.: Quando a gente engravida, acha que educar é algo simples e natural. Não estudamos para ter os filhos, para a missão mais importante das nossas vidas. Quando divido essas dificuldades, mostro que não é fácil, que não nascemos sabendo, porque às vezes as pessoas vivem sozinhas essas dificuldades da maternidade e da paternidade e acreditam que estão vivenciando isso porque existe um problema com elas – porque não nasceram para ser pais, porque são péssimos pais. Então tenho a intenção de mostrar que, se você tem uma dificuldade, não é porque tem um problema, mas porque essa função exige um preparo que não temos, uma rede de apoio que não costumamos ter. Assim começamos a perceber que é preciso mais do que boa vontade para criar um filho: precisa estudar, ter rede de apoio, entender como funciona o desenvolvimento infantil, como as fases alteram psicologicamente o comportamento da criança, como pensar a educação a longo prazo, que habilidade do futuro pode ser desenvolvida com o nosso filho hoje no dia a dia. Também acredito muito que a vulnerabilidade conecta. Quando me abro e mostro o que acontece na minha casa, me mostro humana, e é mais fácil se identificar com quem é humano do que com quem se mostra perfeita, intocável, que tem um padrão impossível de alcançar. Dessa forma quero mostrar que é possível sim implementar uma educação mais honesta e uma comunicação mais verdadeira, mais conectada com a criança e mais sincera com a gente mesma.

 

Q.: Você fala muito sobre educação não violenta. Qual é a importância de trazer essa prática para o dia a dia de pais e mães, e como ela funciona?

 E.S.: A comunicação não violenta traz uma nova visão sobre a parentalidade, a criança e a relação entre pais e filhos. Saímos daquele patamar em que pai fala e criança obedece para enxergar essa criança como um ser humano em desenvolvimento, como alguém que vai para o mundo em um futuro muito próximo e que precisa se preparar para isso, alguém que precisa conhecer a si mesmo para estar neste mundo de maneira mais consciente. Se você observar as relações que temos, a sociedade como está, fica muito clara a falta de autoconhecimento, a pouca inteligência emocional que foi desenvolvida em nós, porque não era o foco da educação que recebemos. O mundo mudou e o foco da educação também precisa mudar. E a educação não violenta traz essa educação mais conectada, mais compassiva, sem perder a firmeza, mas encontrando um equilíbrio, uma relação de respeito mútuo. Tiramos o rótulo da criança “difícil” que eu tenho que educar, “insuportável”, que quer mandar em mim. É uma mudança de paradigma na relação pai e filho. E muito além de pensar nas habilidades que eu quero que essa criança tenha no futuro, essa educação também facilita a minha vida, porque, quando lido com os sentimentos do meu filho e o ensino a lidar bem com esses sentimentos, eu ajudo a mudar a forma como ele enxerga a si mesmo. A criança que se sente bem se comporta bem. Comportamento infantil está diretamente ligado ao sentimento. Portanto, quando falo de educação não violenta, não falo só de seus efeitos a longo prazo, falo também de ter um dia a dia mais fluido, mais leve e conectado.

 

Q.: O que você pensa sobre o uso da tecnologia, como tablets e smartphones, por crianças?

E.S.: Eu acredito que criança não nasceu para ter tablet e celular na mão. Essa é uma ferramenta que muitos pais usam para facilitar o dia a dia. E aqui não há nenhum julgamento contra pais que utilizam ou não utilizam. A gente precisa entender que essa não é uma necessidade infantil, é uma muleta que pais e mães utilizam para conseguir lidar com a rotina sobrecarregada, mas eu realmente acredito que isso atrapalha o desenvolvimento da criança. Crianças não nasceram para ficar na frente de telas. O uso tem que ser muito restrito, muito determinado em seu período de tempo, e não pode substituir o brincar livre. Criança nasceu para experimentar o pé no chão, a imaginação solta e livre, o que um celular ou um tablet não podem proporcionar.

 

Q.: Para você, qual é a importância de inserir a leitura na vida das crianças? Você tem alguma rotina especial de leitura com seus filhos?

E.S.: Acredito que a leitura seja mágica na vida de uma criança. Sou muito suspeita para falar porque amo ler desde pequena, tenho muitas lembranças dos meus pais lendo para mim, lembro dos meus olhos encantados com os livros, e busquei transmitir isso para os meus filhos. Leio com eles desde muito novinhos, tenho fotos lendo para o meu mais velho quando ele tinha 4 meses, e aqui temos a cultura de sempre dar livros para os amiguinhos como presente. Também explico que os livros são companheiros, devem ser tratados de forma especial, que é a visão que eu tenho. Nós lemos todos os dias antes de dormir: depois de jantar, escovar os dentes e colocar os pijamas, cada um escolhe o livro que quer ler. Já é uma rotina, uma cultura, e se eu falo que não vamos poder, porque já estamos atrasados, eles ficam arrasados. É algo que não dá para tirar. Eu acredito que o desenvolvimento dessa relação com a leitura fortalece a intelectualidade, a linguagem – quanto mais lemos mais desenvolvemos a linguagem –, enfim, tem inúmeros benefícios para a infância.

 


Elisama Santos é escritora, autora de Tudo eu! e {Re}Olhar. Educadora parental certificada pela Positive Discipline Association. Formanda em Psicanálise Clínica e consultora em educação não violenta. Mãe de Miguel e Helena, encontrou na maternidade o começo de uma grande mudança na vida. Dedica-se a estudar – e compartilhar – a comunicação não violenta e o autoconhecimento, certa de que mudará o mundo. Seus vídeos, livros, textos, workshops e palestras têm ajudado milhares de pessoas a transformarem as suas relações consigo mesmas e com os filhos.

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