Como escolher livros para crianças?

Conheça as questões envolvidas em uma boa seleção de livros para a criançada!

Longe de fazer um manual explicativo para familiares e profissionais que lidam com a criança, quero antes levantar algumas questões para a hora de selecionar livros para a criançada.

As crianças têm acesso aos livros e tomam ou não o gosto pela leitura sempre por meio do adulto, sejam seus familiares, professores ou bibliotecários. E normalmente esse acesso não é aleatório. São os adultos que escolhem, indicam, especialmente na primeira infância, quando o leitor está se desenvolvendo. Pode-se observar nestas escolhas uma série de fatores: culturais, psíquicos, experiências prévias, ideologias, experiências de vida, experiências prévias com textos e diversas outras referências. A própria produção de livros para crianças está relacionada à ideologia, ao mercado, à tradição etc.

Na esteira do sucesso da autoajuda para adultos, sintoma contemporâneo, começou-se também a produzir livros de autoajuda para crianças. A maior parte desses livros não veio de forma explícita, mas sim disfarçados de literatura, por meio de histórias infantis. E se houve uma oferta por parte das editoras é porque houve uma demanda por parte do público leitor.

Um livro carrega conhecimento e, muitos adultos acreditam, um saber sobre o mundo e sobre si mesmos. A consequência é que a literatura a serviço das questões práticas vivenciadas pelos pais ou educadores se tornou muito popular neste início de século. Claro que muitas informações e dúvidas encontram eco em livros informativos, mas às vezes a resposta exata que os pais buscam são um equívoco e enquadra em uma situação fechada questões mais amplas ou profundas. Muito diferente da emoção que um texto literário propicia quase que espontaneamente, na identificação do leitor com personagens ou passagens das histórias.

Em Seis passeios pelos bosques da ficção, Umbero Eco destaca que “Qualquer passeio pelos mundos ficcionais tem a mesma função de um brinquedo infantil. As crianças brincam com boneca, cavalinho de madeira ou pipa a fim de se familiarizar com as leis físicas do universo e com os atos que realizarão um dia. Da mesma forma, ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo de verdadeiro a respeito do mundo”.

Certa vez, recebi na livraria uma mãe muito angustiada buscando um livro que “ensinasse seu filho a comer”. E depois dessa frase veio uma longa história de detalhes de como e o que seu filho não comia. Meu primeiro pensamento foi “porque você mesma não ensina?” Mas fui além da demanda dessa mãe e começamos a conversar sobre alimentação, fui perguntando mais e assim me aproximando de algo que poderia ser um pouco de sua questão com a comida.

Quando se pede que o livro saiba mais e ensine ele sozinho ao filho, destitui-se do lugar de ouvinte, destitui-se a criança do lugar de leitor e destitui-se o livro enquanto lugar privilegiado de literatura. Em outras palavras: a criança pode achar o livro chato e o perde-se o vínculo que poderia ser estreitado através da simples curtição de boas histórias.

Se é certo que muitos pais querem que o livro eduque a criança, ao mesmo tempo histórias podem sim servir como um pretexto e como um mediador para assuntos familiares delicados. Quando vemos que alguns temas, tal como a morte, são espontâneos no texto escrito, vindos de uma criação literária autêntica do autor, isso faz toda a diferença. A história muitas vezes emociona e traz significados importantes para cada um. O livro encontra seu leitor.

Entretanto, isso não é o padrão hoje em dia na edição de livros infantis e nem sempre o resultado é interessante do ponto de vista literário. Livros de autoajuda para pais, disfarçados de literatura infantil, tratam de temas em voga, como bullying ou alimentação saudável, mas de forma artificial, sem criatividade, com o tema sendo o personagem principal de um livro que já vem pleno de sentido. Desta forma, a leitura que já vem carregada de um peso e de uma responsabilidade pode se tornar um enfado ou ainda pior, um martírio para as crianças, leitores em desenvolvimento.

Sem conclusões fechadas, cabe aos autores expressarem em sua arte/escrita/literatura a panaceia de sentimentos humanos, através da qual podem eternizar suas obras e propiciar identificação no pequeno público leitor.

Buscando a resposta no livro, corre-se o risco de dar respostas prontas para sentimentos e vivências passíveis de interpretação e de um sentido próprio. Apaga-se a imaginação da criança, o sentido próprio que suas vivências podem ter.

Em seu livro “O que havia antes de haver algo”, o artista argentino Liniers conta a história de um garoto que tinha medo do escuro, porque na escuridão os monstros começavam a aparecer. Então corria para o quarto de seus pais, que o acolhiam e apagavam a luz. Assim os monstros reapareciam. Liniers termina sua emocionante história com uma simples dedicatória: “Dedicado a meus pais, que apagavam a luz e acendiam a imaginação.”

Oferecer literatura criativa para as crianças pode ser uma forma de acender sua imaginação.

 

Cláudia Serathiuk é psicanalista com formação em psicanálise e experiência clínica no Brasil e na França, tendo interesse e atuando com psicanálise, literatura e desenvolvimento infantil. É graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná e foi proprietária da Livraria Bisbilhoteca – Cultura infanto-juvenil, em Curitiba. 

 

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